Usar vestido
Por Thays Prado
Receita do meu homeopata há alguns meses: comer nove pétalas de rosas vermelhas – três, a cada três dias. Ainda não segui a prescrição, mas pelo que entendi, serve para aflorar a feminilidade e a sensualidade da mulher. Colocar salto, se maquilar e usar vestido.
Ontem resolvi experimentar a última recomendação e ouvi: “Adoro mulher de vestido”. Senti uma mistura de contentamento e rebeldia. Lembrei-me de meu pai, que sempre dizia isso a minha mãe, apesar de ela quase nunca usar.
E também me lembrei de que foi meu pai quem me cobrou saber cozinhar aos 11 anos, porque minha avó já o fazia desde os sete para os peões da fazenda onde morava. Prometi a mim mesma que jamais aprenderia sobre culinária. Seguindo o mesmo raciocínio, recusava-me a desempenhar qualquer tarefa doméstica que não fosse feita pelo meu irmão e assim, acabei contribuindo para que minha mãe, que sempre trabalhou fora – e muito – ficasse ainda mais sobrecarregada.
Detestei quando tive que começar a usar sutiã, porque quase nunca tinha um que me servia e as vendedoras adoravam justificar: “É que ela tem pouquinho, né?”. E só tive coragem de contar para minha mãe que havia menstruado pela primeira vez, três dias depois. Não era medo das cólicas, do incômodo do absorvente ou dos dias sem piscina. Era vergonha de todo mundo dizer: “Ah, agora ela já é uma mocinha”.
Como a boa aluna que sempre fui, sonhava em ser cientista. Minha mãe me disse uma vez que não achava uma boa idéia, porque os cientistas trabalhavam muito e não tinham tempo de cuidar da casa, do marido e dos filhos. Resolvi, então, que casamento e maternidade não estariam no meu destino. Mesmo assim, esperei meu príncipe encantado para dar meu primeiro beijo e, depois da decepção amorosa, cortei o cabelo curto, estilo “joãozinho”. Naquele momento, decidi que os homens não eram dignos de confiança.
Minha primeira transa foi sem amor ou fantasia, mas o que mais achei legal foi quando ele me deu o braço antes de irmos dormir. E passei um ano pedindo desculpas a um segundo namorado, que me culpava por não ter “esperado por ele”. Quando acabou o namoro, determinei que amor e sexo eram coisas completamente distintas. E pensando ser uma mulher moderna, acabei por alimentar o machismo e a insensibilidade de alguns homens. Se é que posso chamá-los assim.
Como a maioria das mulheres, sempre que ouvia uma cantada de um homem na rua, pensava: “Como é que você ousa? Eu sou uma mulher e preciso ser respeitada. Não sou submissa, nem um objeto para você ficar admirando”. E acho que fazia uma cara tão feia que o sujeito devia até mudar de idéia sobre o que tinha dito. Hoje, prefiro entender esses comentários como elogios. Às vezes ainda sinto raiva, mas estou aprendendo a rir. Dos homens, que pensam que precisam de cantadas baratas para provar sua masculinidade, e das mulheres, que só reforçam a teoria deles quando se sentem ofendidas, como se fossem assim tão frágeis.
Da última vez que fui visitar minha família, percebi que nem tudo é tão rígido quanto costumava me parecer. Atualmente, minha mãe ganha mais do que meu pai, e pela primeira vez a percebi mais vaidosa, comprando roupas, sapatos e acessórios para usar em seu dia-a-dia. Meu pai ainda insiste que não sabe cozinhar, no entanto, foi ajudar minha mãe a fazer o almoço enquanto eu estudava e garantiu que a salada só ficou boa porque foi ele quem picou os legumes. Minha irmã luta Kung-Fu, mas faz as unhas toda semana e sempre se maquila quando vai sair. Meu irmão continua a não ajudar nas atividades de casa, mas sabe fazer uma bela lasanha e até quis aprender sobre incensos e massagens para conquistar as meninas. E eu, além de ter comprado o tal vestido, estou ansiosa para testar algumas receitas de culinária.
Não sei até que ponto as diferenças entre homens e mulheres são culturais, frutos de condicionamentos psicológicos, determinações biológicas ou escolhas cósmicas. Nem sei se é possível fazer essas diferenciações. Mas talvez o mais importante seja ficar em paz com o que se é e o que se faz.
Não quero abrir mão do meu lado masculino, que me impulsiona a agir, a ser firme, a lutar pelo meu espaço. Mas também não quero mais impedir que meu lado feminino se manifeste, porque ele faz parte de mim e pode me ajudar a descobrir a mulher que sou, ou que me tornei, apesar de tanto negar. E isso não tem nada a ver com perder força ou independência.
Está na hora de comer as pétalas.


Acho ser feminina muito gostoso,, mesmo com a parte ruim culinaria ,lavar passar, vou seguir a receita para mim só falta comer petalas de rosas vermelhas.
gostei muito da materia!!
Oi, Maria!
Acredito que lavar, passar, cozinhar são tarefas domésticas que precisam ser executadas tanto por homens quanto por mulheres e não dizem em si sobre nossa feminilidade… Mas há algo relacionado com cuidado e criatividade nessas atividades que podem se transformar em um exercício muito interessante e verdadeiramente prazeroso para muita gente, independentemente do sexo.
E as pétalas são poderosas!
Obrigada pelo comentário
Muito interessante! Também aprecio imensamente os segredos que estão por trás da alma feminina; Compete-nos desvendar esses segredos, imanentes e personalíssimos, presentes em cada uma de nós. Basta ser mulher para sentir e… deixar fluir!