Universos diferentes?

Por Manoella Oliveira
O burburinho da sala de dança podia ser ouvido de qualquer lugar da escola. Entre as várias meninas de collant e seus risinhos, estava um garoto um pouco constrangido, de short, à espera da professora. Essa bem podia ser uma cena do filme Billy Elliot* – em que o menino pratica balé escondido do pai, que sonha com um filho boxeador -, mas era apenas Dia do Amigo em uma academia de Belo Horizonte. Nessa data, as alunas de dança podem levar colegas para experimentar as movimentações artísticas do corpo. Daniel, 10 anos, foi convidado por sua amiga Maria Clara, 9, a participar da aula que ela frequenta há um mês. Ele topou.
Mal a professora entra na sala, ele se apressa em avisar: “Vim fazer aula de dança, mas sou levado”. A pose não colou. Sem se intimidar pelo garoto assentado no chão, ela aponta para as alunas que corriam e penduravam em tudo quanto podiam, e lembra: “Bailarinas, parem de correr! Vocês são meninas!”. A aula é de jazz, estilo mais dinâmico que o balé clássico e que pode ser dançado com enorme variedade de músicas.
Do outro lado da cidade, em outra escola, não há meninos em sala, mas é consenso entre as pequenas bailarinas que “seria legal” ter um garoto por ali. “E menino pode dançar?”, provoco. Ana Luíza, 8 anos, que até então se divertia com pulinhos e estrelinhas, sossega e me diz com ar precoce e mão na cintura: “Claro. Todo mundo tem os mesmos direitos”. Ana fala com a firmeza de quem sabe o que diz, mas será que os meninos concordam?
Hugo, uma criança de 6 anos que vive a pular de um lado para o outro, parecia forte candidato a se juntar às bailarinas iniciantes, mas ele diz que balé está fora de seus planos. Só gosta de futebol e basquete. ”Já dancei uma vez na escola, sozinho, escondido das pessoas grandes e das pessoas pequenas. Foi quando eu estava no 2º período…Não gostei” diz. “E se eu te chamar para dançar comigo agora?”.
Hugo ensaia uma cara de impaciência de quem já havia contado que está mais para Buffon do que para Barishnikov*, mas se diverte ao levantar do sofá e dançar comigo algo desengonçado que ele acredita ser balé.
ROSA OU AZUL?
O senso comum ensina que os meninos devem correr pela rua, gritar e brincar de socar uns aos outros. As meninas, que gostem de boneca, falem baixo e apresentem modos à mesa. É assim que as crianças desenvolvem a segregação entre os sexos. A primeira delas começa antes mesmo do nascimento, com a preparação do enxoval e do quarto do bebê.
Se há algumas décadas rosa e azul eram regra, ultimamente, os enfeites infantis estão mais diversificados, mas ainda são raros os que compram peça de roupa rosa para um menino ou arriscam um quadro de carrinho num quarto de menina. Ângela Resende faz parte dessa minoria. Mãe dos gêmeos Bárbara e Daniel, de 5 anos, ela diz que não se preocupa em separar o que é de menino e de menina. O quarto dos filhos é todo pintado de azul e as paredes são enfeitadas com flores, carrinhos e bonecas. Os brinquedos ficam num cômodo à parte, que mistura fadinhas, navios pirata, casinha de bonecas e super-heróis que parecem conviver bem. Assim como os irmãos.
“Apesar de os pais, agora, se permitirem mesclar mais cores, mais elementos, outras questões avançaram menos. As famílias ficam preocupadas se uma menina se integra a um grupo de meninos ou vice-versa. Essa não é uma questão para ser levada a sério”, explica a orientadora educacional e psicopedagoga Mônica de Souza. Segundo a especialista, à medida que a criança cresce, fica cada vez mais claro que a sociedade segrega: homens devem fazer determinadas coisas e mulheres, outras. A partir dos sete anos, a própria criança internaliza essas construções sociais e começa a reproduzir esses conceitos.
“É aí que um menino passa a chamar um colega que é mais sensível, por exemplo, de ‘bebê chorão’. Isso pode até acontecer mais cedo, caso as crianças cresçam perto de pessoas que têm visões deformadas da realidade, que não enxergam o masculino e o feminino em cada um de nós”, completa.
RANGERS VERSUS PRINCESAS
Essa falta de percepção, mais comum do que se pensa, induz até mesmo pais que compreendem essa dualidade a tomar atitudes sexistas no intuito de evitar problemas para os filhos. Com Bárbara, o conflito apareceu na festa de aniversário. Ela queria Princesas, o irmão queria Power Rangers e o tema escolhido pelos pais foi circo.
Alguma conversa depois, os gêmeos querem definitivamente Power Rangers, mas a festa vai ser mesmo de palhaços.
Ângela diz que quando os gêmeos eram mais novos, já tiveram festa de Cinderela e de Branca de Neve, mas agora que estão “maiorzinhos” o tema de Power Rangers poderia instigar falatório. Além disso, os enfeites de circo eram mais bonitos.
Com Daniel, foi o Dia do Brinquedo. Na ocasião, ele escolheu uma Barbie da irmã para levar para a escola, mas Roberto convenceu o menino a mudar de idéia, preocupado com o que os coleguinhas poderiam dizer. “Dentro de casa não tem problema ele brincar de boneca, ele até tem algumas, mas criança é muito cruel. Se algum menino o vir brincando, pode rir da cara dele. Acho que é nosso papel preservar os filhos”, explica o pai. Já Ângela, pensa diferente. “Eu deixei ele levar, acho que as crianças têm que dar conta das escolhas que fazem e têm seus recursos para se defender, se for preciso. Meu marido é mais protetor, prefere direcionar para evitar que os meninos sofram, afinal, os colegas são importantes para eles. Nem sei o que ele disse para o Daniel, porque não existe uma justificativa. Não pode levar a boneca por quê?”, ri.
APENAS BRINQUEDOS
Ao escolher um jogo ou brinquedo, a criança está moldando sua personalidade, mas quem coloca contexto de sexualidade são os adultos. É o que diz a psicóloga Maria de Fátima Campos “É responsabilidade dos pais, educadores e familiares encaminhar a criança cultural e moralmente, apenas, no mais têm que aceitar suas escolhas. O brincar não abre espaço para repressão”.
É assim que funciona a escola onde a professora de educação infantil Bruna D´Carlo trabalha. Nas sextas-feiras, o Dia do Brinquedo funciona como um dia de troca. “Fazemos uma roda para colocar os brinquedos e eles podem emprestar se quiserem. Algumas meninas gostam de brincar de carrinho, alguns meninos gostam de brincar de panelinha. É natural, é apenas um brinquedo”, conta Bruna.
Aos sete anos, as crianças percebem as diferenças no mundo como um todo; a menina se vê diferente do menino e vice-versa e a escola muitas vezes reforça essa tendência. As rodas de brinquedo, por exemplo, começam a ser separadas a partir dessa idade. “Acredito que o papel da escola é atuar na formação de caráter, ajudar a formar o cidadão de bem e não encher a criança de preconceitos. Se o professor não tiver consciência critica na formação da criança ele acaba reproduzindo a segregação”, opina a professora.
INTEGRAÇÃO
Raquel Coelho, mãe do outro Daniel, enxerga os lados masculino e feminino, mas ainda assim não gostaria que o filho dançasse. Por ser divorciada, ela teme que o filho perca a referência masculina. “Deixei ele decidir se iria ou não no Dia do Amigo, mas se ele quisesse se matricular na aula de jazz eu ficaria estressadíssima. Em casa ele convive só comigo e com a minha empregada, por isso fico com medo dessa constante de mulheres transformá-lo em uma mocinha”, brinca.
De acordo com especialistas, o estresse de Raquel seria infundado. O estímulo ao lado feminino não impede que o masculino se desenvolva. Daniel já fez xadrez, tênis, natação e judô, por sugestão da mãe, do tio, e da tia, mas largou tudo e ultimamente passa as manhãs em casa. “Ele ama futebol, mas eu não deixo fazer porque falam muito palavrão durante o jogo, então o deixei fazer outras atividades, mas ele sai de tudo”.
Já Cláudia Andrade e Antônio Brandão incentivaram a filha Laura, 8 anos, a experimentar esportes tidos como coisa de menino – no mundo fantasioso dos adultos, claro – porque a menina não se adaptou às aulas de dança. Logo na aula experimental de judô, ela decidiu que praticaria artes marciais. As meninas da sala são apenas duas: ela e a professora, Renata, mas isso não faz com que ela se sinta diferente. Laura garante que os meninos a tratam de igual para igual. Ponto para a sabedoria das crianças.
Mônica de Souza explica: “Quem vê problemas em abrir as possibilidades de esporte para ambos os sexos são pessoas de visão deformada, o problema está com os pais, não com a criança. Uma menina não vai se tornar mais masculina porque faz judô. Se ela se tornar, é porque é importante para ela naquele momento. Se a criança não tiver essa oportunidade para experimentar, ela vai fazer isso quando?”, questiona.
*Gianluigi Buffon é goleiro de futebol italiano, eleito melhor do mundo em 2006 e novo ídolo da criançada. *Mikhail Barishnikov é bailarino e coreógrafo consagrado como um dos maiores nomes do balé.
*Billy Elliot (2000), de Stephen Daldry, é um filme tocante, divertido e altamente recomendável.


[...] na capa para uma menina, em algum nível, você está elegendo a cantora como modelo; ou quando não dá roupa rosa para um garoto; quando você faz cara feia para a comida; diz que se a menina sair mal-vestida não vai arrumar [...]