Simplesmente amor



Simplesmente amor

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Dizem que amor de mãe é incondicional, que não tem limites, que mãe é mãe, que mãe só tem uma, que ninguém ama tanto quanto mãe e, claro, que ser mãe é padecer no paraíso. Não tenho experiência própria no assunto, mas imagino que deva ser muito difícil conviver com todas essas exigências – feitas pelos filhos, pelos pais, por outras mães, pela maioria de nós.

Além de se descobrir grávida, de saber que a vida vai mudar de maneira radical, que o corpo está se transformando e que agora se é responsável pela existência de um outro ser que ainda nem conhece, cobram que a gravidez seja um mecanismo que descarrega os melhores sentimentos no corpo da mulher – evidentemente casada – e que o parto seja o auge da glória, a consagração do amor eterno entre mãe e filho.

Repito: não tenho experiência nisso; mas olhando mais de perto e procurando não se deixar levar pelos preconceitos sociais, qualquer um é capaz de perceber que, quando se trata de gente, não há regras. Há amor, mas também há raiva, há carinho e impaciência, doação e egoísmo, preguiça, medo, alegria, dor. Porque ser mãe não exclui, absolutamente, o fato de ser humana.

simplesmente_text2HORMÔNIO DO AMOR?
Para o psiquiatra e escritor José Ângelo Gaiarsa é inegável que exista uma ligação natural entre mães e filhos. “Filhote sem mãe, na natureza, não dura nada. Ela é o eixo da espécie. Não duvido que algo disso exista na fêmea-mulher. É difícil distinguir o que é amor materno instintivo, convenção social, ou costume de cada família”. Mas a natureza favorece a criação desse elo desde o nascimento do bebê.

Gaiarsa afirma que a Medicina tem feito observações sobre a ocitocina, produzida pela mulher para facilitar as contrações do útero, e acredita que esse é o hormônio do amor entre mãe e filho. O psiquiatra defende que um dos grandes crimes do mundo moderno e das maternidades é a separação dos dois após o parto. “Vários animais se reproduzem em enormes multidões. Quando a mãe sai para buscar comida, como acha o filhote naquela bagunça? Se você separá-los durante uma ou duas horas depois do nascimento, ‘tchau e bênção’, eles não vão se achar nunca mais. Eu diria às mães que jamais permitam que façam isso com elas. Não se pode ignorar esses fatos, é questão de cheiro e de presença. O elo básico entre mães e filhos se faz imediatamente após o parto”.

Obviamente, não basta aplicar uma injeção de ocitocina na mulher para que ela se apaixone pela criança, mas o psiquiatra brinca que até não seria uma má idéia. Ele diz que a crença de que toda mulher quer ou pode exercer a maternidade precisa ser posta à prova e que, em todas as espécies, há algumas fêmeas que jamais deveriam ser mães. Uma das alternativas, que é também um projeto pessoal de Gaiarsa, seria a existência de uma “escola de família”. “Ninguém teria o direito de ter filhos sem passar por uma formação específica e fazer alguns testes para ver se tem capacidade, gosto, paciência e jeito. Isso seria para o bem da própria mãe, porque crianças são fascinantes, super lindas, encantadoras. Se se dispuser a aprender com elas, você refaz sua vida, mas se a mãe não se entender com o filho, é diabólico, eles se torturam reciprocamente”.

O psiquiatra também discute a afirmação consensual de que toda criança precisa de uma ligação forte com a mãe e um ambiente familiar tradicionalmente estruturado para se sentir segura no mundo. Ele acredita que a vida das mães e a própria constituição da família são tão variadas atualmente, que talvez fosse melhor pensar em uma nova forma de organização. “Por que não arrumar várias mães para um filho? Eu digo que quanto mais pessoas adultas e que gostem de crianças estiverem por perto, melhor. A desgraça da família, consagrada por Freud no Complexo de Édipo, é uma mãe só para cada filho. É uma ligação muito amarrada, muito densa, muito excessiva entre duas pessoas”.

RELATOS
Luzimar Marcelino casou-se aos 24 anos, engravidou um mês depois. “Primeiro a gente se apaixona pela idéia de ser mãe e vai sentindo: ‘olha que poder o meu, que coisa linda’. Ao mesmo tempo, eu pensava: ‘Meu Deus, o que eu vou fazer com essa coisinha?’”. Hoje, Maria Carolina tem 22 anos e, no ano passado, ganhou um irmão. Luzimar e o marido estavam há três anos em uma fila de espera para adoção, quando receberam um telefonema para buscarem o bebê.

Antes de Luzimar vê-lo, a assistente social informou que o ele era negro e ela não precisava ficar se não gostasse. Ela não estava preocupada com isso: “Não estou fazendo uma compra, como não vou gostar? E aí ele te olha e você tem a certeza de que é seu, nasceu para você. É amor à primeira vista”. Ela diz que sentiu os mesmos medos de quando teve a filha e se perguntava se ia conseguir correr atrás do menino, ou se seria capaz de cuidar dele. No primeiro banho, teve a confirmação de algo que o coração já sabia: “Vi que Henrique tinha uma manchinha na perna igual à minha e à da Carol. Não tinha o que discutir, era meu filho”.

Aos 48 anos, Luzimar tem tranquilidade para dizer: “Às vezes, sinto raiva da minha filha, fico chateada, acho alguns defeitos dela horríveis. Ela também deve sentir isso em relação a mim. Até hoje, ela acha que pode falar tudo o que a chateia em relação a mim e dizer ‘eu sou sua filha’”. Henrique ainda não aborreceu a mãe, ainda assim, ela sabe que os questionamentos vão surgir. “Será que devia ter tido filhos? Será que era esse o filho que eu queria?” E se isso já gerou culpa na mãe de primeira viagem, hoje é encarado como um direito de Luzimar, como ser humano, de expressar o que sente.

Cristiane Seabra, 34, estava saindo com uma pessoa, “deu uma vacilada” e ficou grávida. “Quando descobri achei um horror. Tinha uma vida tranquila, sem filhos, morando com a mãe e, de repente, existia uma pessoa completamente dependente de mim”. Ela conta que o que “pegou” foi o fato de não ter tido um filho com alguém que amava. Além disso, ficar em casa o dia todo, por conta de um bebê, e dormir pouco e picado, foram motivos de irritação.

Ela pôde contar com o apoio da mãe, e com uma enfermeira e uma babá nos primeiros meses. Mesmo assim, no começo foi difícil para a moça trocar tantas fraldas ou distinguir o que era um choro de dor de barriga, de ouvido ou de garganta. Ela se perguntou muitas vezes: “Tudo ele? E eu? Cadê minha vida, o que eu fui fazer com a minha vida? Mas depois a gente se acostuma”. Hoje, “Dudu” consegue expressar melhor para a mãe os seus desejos, mas a fase das birras começou.

Cristiane faz questão de almoçar com o filho, já que trabalha perto de casa, mas se sente culpada por ficar dois horários fora, porque o desenvolvimento da criança passa rápido e ela pode perder muita coisa. Ela tem vontade de ter outro filho e acha que “deve ser mais tranqüilo, a gente deve aprender a amar mais rápido. Mas sem casar, nunca mais”. Mesmo com todas as dificuldades de adaptação à nova vida, para ela, ser mãe “é tudo de bom, é um pedacinho seu que tem aí fora, é muito gostoso quando a criança te chama de ‘mamãe’ e começa a apresentar traços físicos e da personalidade que você sabe que são seus. Só tendo mesmo pra saber”.

Geraldo Silva*, 43, tinha clara em sua cabeça a divisão entre o que era responsabilidade de mãe e de pai. “Papel de mãe seria dar carinho e amor, cuidar. O de pai, prover os valores materiais. Existe sentimento de pai, mas a gente não consegue igualar ao da mãe”. Há três anos, sua mulher foi embora para os Estados Unidos e deixou a filha de 12 para ele cuidar. Passado o desespero inicial, o garçom assumiu as tarefas domésticas, arrumou um segundo emprego e acabou descobrindo o grande amor que sentia pela filha.

“Procuro entender o que uma mãe dá a um filho e representar isso para ela”. Geraldo diz que conseguiu construir uma relação de confiança com a adolescente, mas às vezes se pergunta por que precisa criá-la sozinho e critica a atitude da ex-esposa. “Abandonar um filho por valores materiais é imperdoável. Criar por telefone é muito fácil”. Ele pretende encontrar uma mulher com quem possa viver, mas ainda tem medo de magoar a filha com isso e prefere esperar que ela complete 18 anos. Geraldo se preocupa com a garota o tempo todo e quer dar à filha tudo o que não pôde ter. “Não me acho bonzinho, esse é o meu papel de pai mesmo”.

Tatiana Peixoto*, 22, não sabe se a falha foi dela ou da pílula, mas o fato é que a descoberta da gravidez a assustou. Envolvida em um relacionamento instável, sem emprego fixo e apavorada com a provável reação da mãe, viu no aborto a primeira saída. Mas o namorado, que era mais velho e queria muito ser pai, espalhou a notícia da gravidez para evitar que a moça tirasse o bebê. A tática funcionou.

Quando a mãe soube da novidade, ficou chocada e passou toda a gravidez da filha conversando com ela apenas o essencial. A futura avó também havia sido mãe muito jovem e não queria ver a história se repetir. Tatiana se culpou por não se apegar ao bebê que carregava, principalmente quando via a outra grávida da faculdade ficar o tempo todo alisando a barriga. E ela só se deu conta do amor que sentia por Júlia quando o bebê começou a se comunicar com ela através do olhar.

Hoje, a menina é o xodó da mãe e da avó. “Não me arrependo. A cada dia que passa, sinto que foi a decisão mais certa que tomei na vida”, conta Tatiana. Enquanto dá a sopinha de chuchu para Júlia e coloca um DVD sobre bichos, que a filha adora, define: “Amor de mãe é quando você morre por ela. Se tiver que tirar o coração e dar a ela, você faz. E é uma coisa constante, mesmo quando fico com raiva e a seguro com força”. Tatiana diz que acha lindo cada aprendizado da filha. O que ela aprendeu com Júlia? “Além de trocar fraldas?”, brinca. “A me doar mais, a compartilhar e a sentir que não estou sozinha, existe uma pessoa no mundo que depende de mim”.

Roberto de Oliveira Filho, 27, também ficou responsável pela criação dos três filhos após a separação. A ex-mulher até então não trabalhava e se mudou para São Paulo, onde morava a mãe, para refazer sua vida. Roberto fazia Direito e trabalhava como auxiliar administrativo em uma loja de Belo Horizonte, mas decidiu deixar o curso e se dedicar à decoração de festas e serviço de buffet. Há dois anos, o rapaz se interessou por um outro homem. A família lidou bem com a nova relação e as crianças, que já tinham contato com ele desde que era apenas amigo do pai, se deram muito bem com seu novo namorado.

A mãe das crianças se casou novamente e tem mais uma filha. No final do ano passado, por causa do excesso de trabalho de Roberto, Gabriel (9), Camila (6) e Ana Clara (4) foram morar com a mãe. “Ela estava muito ausente e os meninos sentiam falta. Ficarem com a mãe é o melhor para eles neste momento, porque sei que não vão ser maltratados por uma pessoa desconhecida”. Roberto e o namorado sentem falta das crianças e, até o ano que vem, os meninos vão voltar a morar com o pai, que pretende estar com seu serviço de home fest mais estabilizado. “Depois que eles nasceram, nunca mais dormi completamente em paz, estou sempre preocupado. Mas quando estou triste e ouço um “pai, eu te amo”, tenho forças para tudo. Minha vida é para os meus filhos”.

Lídia Pereira, 25, é mãe de Lucas (8) e Eduardo (5). Os meninos moram com os respectivos pais e ficam com ela nos finais de semana em que não precisa trabalhar. Funcionária de uma loja de departamentos, ela se sente culpada por não poder estar mais presente. “Dizem que o tempo quem faz é a gente, mas não é mesmo. Estou lutando para melhorar”. Lígia sempre gostou de se relacionar com mulheres, mas por pressões familiares, se viu obrigada a se envolver com um homem e foi aí que ela engravidou de Lucas, aos 15 anos.

Casou-se e se separou três meses após o nascimento do filho. “Dudu” veio três anos mais tarde, quando a mãe estava sendo novamente pressionada. Depois disso, Lígia resolveu assumir sua orientação para a família e exigiu respeito. E foi Ana Paula, a penúltima namorada, que a despertou para o fato de que ela era mãe e precisava cuidar dos filhos. “Antes eu era muito ‘porra-louca’ e não media as conseqüências do que fazia, queria recuperar minha adolescência perdida. Mas a Ana dizia: ‘não, você vai buscar seus filhos agora’, e seu não ia, ela mesma buscava e me ajudava a cuidar deles”.

Hoje, Lígia afirma que seu amor pelos meninos é incondicional. “Se eu tiver que dar o mundo para eles, eu vou dar, eu ultrapasso todos os meus limites”. Ela sonha em morar com os filhos e percebe o olhar de reprovação de outras mães por não fazê-lo, mas sabe que eles estão melhores com os pais e diz que seria egoísta se quisesse ficar com eles sem ter condições.

Ao ouvir essas histórias, meu objetivo era questionar se o amor de mãe estava realmente acima de todos os outros e se isso poderia ser provado através de atitudes, intenções ou escolhas. A única constatação que tive foi a de que ninguém pode saber exatamente o que vai dentro de cada um. Deixo o aprendizado por conta de quem tiver chegado até o final destas linhas. Afinal, por que estamos aqui, se não para aprendermos uns com os outros?

*nome fictício criado a pedido do entrevistado.



2 Comentários

    Adorei a matéria. Para mim, amor de mãe é algo que não se define mesmo. É amor infinito que vai além de nós mesmas.Adoro ser mãe dos meus filhos. Hoje, como moram em outras cidades, sinto o coração apertado e a saudade muitas vezes me consome.

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