Entre o bom e o perfeito

Por Manoella Oliveira
Quando o tipo físico de alguém nos chama a atenção, na rua, a imaginação vai longe. E é difícil pensar que o sujeito, dono de sorriso ou olhos tão bonitos, não consiga conversar sobre nada interessante por mais de 15 minutos. Na realidade, fazemos justamente o contrário. Parece lógico que além de charmoso, ele seja, também, agradável, inteligente, carinhoso e goste de boa música.
O mais provável, no entanto, é que o “bom partido” atravesse a rua e não seja mais visto. Ou pode acontecer de você conhecê-lo e confirmar a simpatia, o sorriso lindo e… se deparar com um impensável mau hálito. Soou pessimista? É apenas uma surpresa ruim, o que acontece sempre que idealizamos alguém.
Trata-se da construção do sonho, do encantamento, até que elementos não planejados aparecem e nos conduzem a outra realidade e, consequentemente, à frustração. Reunimos uma série de conceitos que compõem nossa idéia de perfeição e focamos na realização do desejo. Nesse sentido, a idealização pode ter como alvo não só pessoas, mas objetos e situações.
“Idealizar é fantasiar que a vida poderia ser exatamente como queremos. A frustração é resultado da constatação de que isso não se realiza, o que é desejado não coincide exatamente com o que se pode encontrar”, explica o professor e psicanalista Guilherme Massara. Assim, sofrem, no campo amoroso, quem não suporta essa nova realidade, o que se traduz em decepções, brigas, afastamentos, traições e disputas.
“O que percebemos é que nossa sociedade constrói estereótipos e o problema está no pressuposto de que a satisfação está ligada a você se tornar esse estereótipo ou a você relacionar-se com ele”, explica o professor e psicólogo Orestes Diniz Neto. Esses referenciais são um misto de experiências de vida e da percepção que temos das celebridades. Essa criação passa pelo indivíduo, mas a consolidação deve créditos à mídia.
E na vida real?
Maria Emília de Queiroz, 47, que o diga. Quando ela pensa em um tipo ideal, lembra do ator Caco Ciocler. Mas para ser perfeitinho mesmo, teria de ser o Caco em uma versão trabalhador, sensível e honesto. Será possível? “Claro que é! Só não achei ainda. Em todo homem falta sensibilidade ou, pelo menos, nos que encontrei”, conta. Apesar disso, Emília se considera realista. “Quando se idealiza, você pega um pouco do marido da vizinha, do da amiga, do seu… Sei que não existe ninguém exatamente do jeito que eu quero”.
Daniel Prado, 27, concorda. Solteiro, ele está em busca de uma mulher afetuosa, que goste de receber carinho, inteligente, “antenada”, que tenha um bom papo, companheira, admirável, compreensiva e que goste de sexo. Ele admira as morenas, as loiras, as mulatas e as orientais. Lúcido, o rapaz não tem pretensão de encontrar tantas qualidades em uma moça. “Não preciso unir tudo numa só. Mesmo porque, seria difícil conseguir uma mulata oriental”, brinca. “Como sou poeta, sou um sonhador, mas não confundo as coisas”.
Ao contrário de Daniel, que se definiu como “solteiro no rock”, Rafael Queiroz, 24, só namora pessoas que conheça há mais tempo. “Isso facilita. A partir do momento que você sabe como é uma pessoa, você começa um relacionamento sabendo como vai ser”, teoriza. “Mas eu não sou bom para adivinhar”, ri. Na prática, Rafael admite que a estratégia não funciona. Afinal, namoro e amizade são relações muito diferentes.
Cibermundo
Paula Lima, 22, mineira, não espera encontrar um namorado em sua roda de amigos. Pelo contrário, busca-os bem longe dali. A veterinária já se relacionou com pessoas de outros estados – o atual namorado é de São Paulo – e países. Para ela, o namoro a distância não incentiva a enfeitar a realidade. “Como você não vê a pessoa todo dia, a conversa precisa ser mais aberta e aí você a conhece de verdade”.
Por outro lado, como os encontros são menos frequentes, a expectativa nesses momentos é enorme, mesmo que seja um simples fim de semana. “Fico muito frustrada quando acontece qualquer evento que estrague esses dias, como quando planejo um jantar e ele quer fazer outra coisa”, afirma.
Mariana Fernandes*, 21, também prefere o mundo virtual, apesar de ter se decepcionado várias vezes. Moradora de Uberaba, ela conta que só se interessa por belo-horizontinas. Dos quatro relacionamentos que teve, três foram com meninas da capital. “Depois que a gente ‘ficava’, eu descobria que ela não era nada daquilo, mas o problema não é a internet. Dá pra fantasiar se estiver a duas quadras de casa ou do outro lado do mundo”. Apesar das experiências ruins, Mariana, agora comprometida, acredita que pode ficar com alguém até “ir para sua covinha”.
Rodrigo Ávila*, também acredita no “para sempre”. O estudante é um dos raros idealizadores assumidos. “Espero o melhor da situação. Alguém fica planejando como vai terminar um relacionamento que está na primeira semana? Penso em como será daqui pra frente”, diz. “Adoro sair, beber ‘pra caramba’, dançar e ficar com várias meninas e meninos. Não acho baixo, acho divertido. Mas monogamia e fidelidade também são rock’n'roll”.
Pos(s)es
O estereótipo desejável dita forma física, jeito de ser e status . “Vão se criando termos para sociedade de consumo e destruindo o planeta pela maneira como se cultua ‘o ter’. As relações são vividas superficialmente e agenciadas por esses meios que definem a qualidade da relação”, diz o psicólogo Orestes Neto. Para ser considerado bem sucedido, um relacionamento tem que seguir rituais e configurar os participantes em papéis. “Assim, o outro se torna um meio para eu me produzir. Você não é, você só é enquanto possui o outro. As relações são superficiais e demandam pouco investimento: são relações de consumo”.
O especialista acredita que muitas dessas pessoas são produtoras de uma forma de ser. “A sexualidade como está sendo vivida não é liberdade, é um ato de produção, se produz uma forma de ser e não de se viver. Por exemplo, cito a disputa que as adolescentes fazem por quantas bocas beijaram em uma noite. Elas não estão interessadas em nenhuma boca em si, se houvesse interesse, elas ficariam só com aquela. Elas só querem ser vistas como alguém que possui muitas bocas, mas, para isso, elas têm que se deixar possuir por muitas bocas”.
Estamos a salvo?
Nenhum de nós está livre de idealizar e ser idealizado. A cultura reforça esse processo, ao aproveitar nossa capacidade de construir imagens que são valorizadas em nossa família e em nosso meio. A mais clássica idealização aparece nas histórias para crianças. “Os contos de fada terminam com ‘casaram-se e foram felizes para sempre’. Aí está a idéia de que o casamento é a felicidade eterna, desde que se encontre a pessoa certa. Isso é uma imagem chapada, como toda idealização. Não tem o lado escuro, não tem os pratos a serem lavados no dia seguinte”.
Além do universo infantil, existe também a literatura romântica do século 19. “Nessa narrativa, a mulher era exaltada numa gama de virtudes e dons que a tornavam uma musa. Uma mulher tão perfeita não alimenta mais que a fantasia, as aspirações e a poética desses autores. A condição para que ela exista é, paradoxalmente, a de que ela não possa ser encontrada”, esclarece Guilherme Massara.
Mas a idealização não é em si, boa ou má. O problema é a apropriação social que se faz disso, a busca pela realização dessa fantasia, que faz com que o indivíduo crie o que for necessário para alcançá-la. As mídias e as artes criam modelos, levando os indivíduos a idealizar tanto do ponto de vista negativo, de se iludr, quanto do positivo, que incentiva o desejo.
“Essas dezenas de comédias adolescentes, nas quais jovens são rejeitados por não serem populares, exploram o tema à exaustão. Uma pessoa que passou a adolescência rejeitada tende a buscar um padrão de aceitação e, com isso, se equivocar. Ela perde o bom da vida e do outro em busca do perfeito inatingível”, resume Orestes.
*nomes fictícios criados a pedido dos entrevistados.


“em um mundo em que a vida se une tanto à vida…só os homens controem a sua solidão”.
Bonito texto meninas!!!