Foi bom pra você?



Foi bom pra você?

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Quantas vezes você já disse ou ouviu de uma amiga algum comentário do tipo: eu nunca tive um orgasmo, eu tenho dificuldades de chegar ao orgasmo, eu finjo quando sei que meu parceiro está com pressa para ejacular, eu sinto prazer no sexo mas não chego lá? Posso responder: uma. Até hoje, apenas uma amiga foi capaz de me contar algo assim. E confesso: eu mesma preferi manter uma “distância de segurança” nas entrevistas que fiz com especialistas sobre esse assunto. Comecei a maior parte das perguntas com o confortável “as pessoas”, mesmo quando as questões eram mais da mulher do que da jornalista que sou. No terreno ainda obscuro do sexo, pouca gente é completamente honesta quando o papo – seja numa mesa de bar, numa conversa íntima ou mesmo num divã psicanalítico – envolve a sua (in)satisfação na cama. A pose de bem resolvida sempre cai melhor. O fato é que, ao longo da história da humanidade, seja por falta de autoconhecimento, por excesso de repressão e até por rebeldia, fizemos uma verdadeira confusão com nossa sexualidade. E pelo constante medo de sermos mal julgados, a imagem que passamos aos outros pouco tem a ver com o que realmente estamos vivendo na intimidade. No momento em que nossa sociedade se baseia na tentativa de viver uma felicidade eterna, um êxtase sem interrupções, no sexo, a ordem não poderia ser outra a não ser: gozar. Para a psicanalista Miriam Moreira,  o fenômeno tem até nome, “cultura do gozo”, e essa exigência é a base de relações adoecidas.

O terapeuta corporal especializado em sexualidade, Fábio Oliveira, diz que, por conta de uma superidealização de como o sexo deveria ser, muita gente tem se sentido na obrigação de sempre chegar ao orgasmo, como essa fosse a garantia de que o ato sexual foi “ma-ra-vi-lho-so”. O grande equívoco é que, com esse comportamento, ficamos muito mais focados no resultado – eu tenho que gozar, quando é que vai ser? – do que em curtir todo o processo. “Isso gera tensão. Orgasmo é uma consequência, uma explosão de prazer, não um lugar a ser atingido”.

É aí que está a diferença entre viver uma relação de genitalidade, quando é gerada uma tensão corporal, que precisa ser aliviada o quanto antes por meio de um orgasmo, e sexualidade, em que o casal pode ficar namorando sem querer chegar a lugar nenhum. A qualidade do sexo no segundo caso é infinitamente maior. “A pergunta é: você quer gozar várias vezes numa noite ou gozar uma vez durante a noite inteira?”, provoca Fábio. Aliás, é possível ter uma bela dose de prazer mesmo sem atingir um orgasmo e até sem fazer sexo. “Abraçar, beijar, trocar confidências, ficar junto, fazer brincadeiras, tudo isso pode ser muito gostoso. O orgasmo em si é apenas a resposta reflexa que o corpo dá e dura segundos – uma transa demora muito mais que isso. Quanto mais tempo e entrosamento existir entre o casal, quanto mais a pessoa se conhecer e mais clara ela for para o outro, mais ela se permite e maiores são as chances de ter uma boa relação sexual”, diz a sexóloga Cida Lopes. Parece fácil na teoria, mas, na prática, nem sempre conseguimos desfrutar de cada momento livres de performances e do medo da opinião de quem está no travesseiro ao lado. Cida reconhece que a maioria das pessoas prefere criar uma imagem do que gostaria de ser, em vez de vivenciar uma relação sem máscaras. Até porque, há sempre o risco de o outro não dar conta de se relacionar com tanta intimidade e ir embora.

Por que tanta dificuldade?

“Porque a gente não se sente no direito. É pecado, engorda, dá neném, só pode depois de casar, só pode um homem com uma mulher e vice-versa”, responde Fábio Oliveira. Para o terapeuta, os condicionamentos sociais que sofremos durante toda a vida vão nos afastando de uma permissão interna de viver prazer. “Para muita gente ainda é assustador falar sobre sexo e orgasmo. Quando olhamos para essas pessoas, vemos histórias de vida construídas sobre uma base de não-prazer“. A educação que recebemos, ainda hoje, contribui muito para isso. Cida Lopes se depara o tempo todo com pais que demonstram uma dificuldade enorme de falar com seus filhos sobre sexo. “No momento em que eles mais perguntam e estão livres de preconceitos, não obtêm respostas. Quando sentem vergonha já não perguntam. E quando o adolescente chega à relação sexual, ele já se cobra saber e não se permite errar”.

E haja fantasias em torno do imaginário do que seria uma relação sexual ideal. O pior é que elas levam a inevitáveis comparações, duras cobranças e muitos conflitos internos. A começar pela ideia que fazemos de orgasmo. Estamos cansados de assistir a filmes e novelas em que os personagens gemem, gritam, contorcem o corpo, gozam juntos e terminam a cena abraçados, com um super sorriso no rosto. Não que isso não possa realmente acontecer. O problema é começar a achar que tem que ser sempre assim e só vai ser bom se for desse jeito. “Se nos apegamos demais a esse padrão que é veiculado, acabamos não validando o que vivemos”, orienta a sexóloga. Para ela, o fato de um dos parceiros, eventualmente, não chegar ao orgasmo não deveria ter tanto peso. Segundo a especialista, é raríssimo o casal gozar ao mesmo tempo, e ficar focado nesse tipo de objetivo só gera frustração. “Temos a ilusão de que na relação sexual deveríamos estar mais juntos, mas é a hora em que estamos mais separados. O orgasmo é individual, normalmente as pessoas estão de olhos fechados, acontece no momento em que você se cala”.

Outra crença muito frequente é a de que o parceiro ou a parceira são responsáveis pelo fato de chegarmos ou não ao orgasmo. No entanto, “o grande orgasmo é aquele que eu posso viver comigo. Eu sou o responsável pelo meu prazer e preciso aprender a me proporcionar isso, a descobrir onde ele está inserido no meu corpo. Se posso partilhar isso com o outro, ótimo, mas se eu não puder, está perfeito também”, define o terapeuta corporal. Fábio assegura que a energia de prazer é inerente ao ser humano e pulsa dentro de nós o tempo todo, por toda a vida. “Se nos permitirmos, temos potencial para viver prazeres que nos levam a níveis superiores de consciência”.

No final das contas, todas as receitas de sexo que compramos nas capas das revistas, em milhares de livros e mesmo da boca de amigos podem ser substituídas por uma dica simples: entregar-se, de verdade, ao momento presente. Que tal experimentar?



1 Comentário

    “But they all do sort of the same thing, and that is rearrange what you thought
    was real, and… hmm… they remind you of the beauty of pretty simple things.
    You forget, because you’re so busy going from a to z, that there’s… hmm …
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