Sagrado Feminino

Por Thays Prado e Manoella Oliveira
Acredita-se que as sociedades antigas se organizavam em torno de uma estrutura matriarcal, como registrou o antropólogo e sociólogo suíço Bachofen em O Direito Materno, escrito no século 19. Ele analisou os mitos da Babilônia anteriores aos escritos bíblicos e descobriu que a primeira divindade cultuada havia sido Tiamat, a Grande Mãe que reinava absoluta. Segundo a mitologia, ela teria sido dominada pelo deus Marduk, que a esquartejou e, das partes de seu corpo, fez o Céu e a Terra, e de suas lágrimas, os rios Tigre e Eufrates. A partir de seus estudos, Bachofen inferiu a alternância de períodos matriarcais e patriarcais nas sociedades antigas.
Uma outra evidência do culto às deusas são as esculturas da Vênus de Willendorf, de 30 mil anos atrás. Representada com suas formas femininas avantajadas, era, provavelmente, a deusa da fertilidade. Karina Guimarães, uma das fundadoras da ONG Rodas da Lua, que realiza danças circulares com a intenção de que mulheres e homens se conectem à sua essência sagrada, afirma que o matriarcado cultuava o sagrado feminino e o poder fecundador da fêmea. “O feminino estaria presente primeiro na Terra, depois na fêmea, na mulher e nas Deusas”. A passagem do matriarcado para o patriarcado tem versões diferentes.
O mitólogo Joseph Campbell afirma que esse evento se deu no Oriente Médio com as invasões dos semitas e dos indoeuropeus. “Eles eram caçadores e traduziram a mitologia da caça para a do pastoreio, que continua dirigida aos animais e, quando há caçadores, há pessoas que matam. Com isso, surgem os deuses guerreiros como Zeus e Jeová”. Campbell crê que os hebreus foram o povo que realmente acabou com as deusas. No Velho Testamento, usavam a palavra “abominação” para se referir a elas. Uma outra versão é a de que os povos nórdicos invadiram as comunidades matrilineares européias e introduziram ali sua mitologia. Os bárbaros não tinham um modelo feminino de sociedade e cultuavam certos deuses masculinos violentos. Na Idade da Pedra, as sociedades focadas numa linhagem feminina eram cooperativas, não competitivas, baseadas na colheita de alimentos e sementes e na tecelagem, funções desempenhadas pelas mulheres.
Após a Era do Gelo, os rios se tornaram abundantes e o solo, fértil. E as mulheres descobriram que se jogassem as sementes que colhiam na terra, a planta germinaria de novo. Surgia assim a agricultura. Friedrich Engels, em sua obra A origem da família, da propriedade privada e do Estado, alega que a produção de excedente nas comunidades possibilitou a fixação do homem na terra e, com isso, estabeleceu-se a propriedade privada. Dessa forma, a transmissão de posse passou a ser feita de pai para filho e não mais das mulheres a seu clã. Por causa disso, os homens prenderam as mulheres para que elas se relacionassem de forma monogâmica e se tivesse a garantia de que os filhos eram legítimos. Na divisão primitiva do trabalho, as atividades exercidas por homens e mulheres eram consideradas igualmente importantes, mas a partir da instituição do patriarcado, o comércio adquiriu novo status e o trabalho doméstico se tornou desvalorizado. “Depois veio a tecnologia, o maquinário, e a agricultura passou a ser mais masculina. Perdemos a conexão com os ciclos da terra, com a noção de vida, morte e renascimento”, afirma Patrícia Cuocolo, psicoterapeuta fundadora do Núcleo do Feminino do Espaço Integração. Ela explica que essa mudança gerou uma cultura de apego. “A cultura patriarcal está caracterizada por uma maneira de viver na apropriação, desconfiança, controle, domínio, sujeição, na discriminação sexual e na guerra”, afirmam Rose Marie Muraro e Leonardo Boff, no livro Feminino e Masculino.
Os autores denominam de feminino o conjunto de características, presentes no homem e na mulher, que representam o mistério, a integralidade, “a capacidade de pensar com o próprio corpo, de decifrar mensagens escondidas sob sinais e símbolos, de interioridade, de sentimento de pertença a um todo maior, de receptividade, de guardar no coração, de poder gerador e nutridor, de vitalidade e de espiritualidade”. Da mesma forma, a mulher tem naturalmente seu lado masculino, que “exprime o outro pólo do ser humano, de razão, de objetividade, de ordenação, de poder, de materialidade e, até, de agressividade”. O Taoísmo, na China, e o Tantra, na Índia, se fundamentam na integração do feminino e do masculino como caminho para o autoconhecimento. Segundo a tradição oriental, o homem só se completa pelo desenvolvimento do feminino dentro de si mesmo. Esse também é o princípio do Yin Yang, símbolo em que a parte escura representa o feminino e a clara, o masculino. Para mostrar que essas energias não estão separadas, em cada metade existe um círculo da cor oposta. Jung propôs o conceito de animus – aspecto masculino, princípio ativo, intelecto – e anima – aspecto feminino, sentimentos, relações, afetividade – e defendia que ambos estariam presentes em todos os seres humanos.
Para Patrícia Cuocolo, não seria necessário resgatar as sociedades matrilineares, mas restituir os valores femininos, como as artes, a intuição, a criatividade, a compaixão, a coopeação, o contato com a alma, a celebração e o silêncio. “Com o patriarcado, a humanidade ganhou em análise, razão e tecnologia. O problema é que nos tornamos só isso. A ferida está no fato de o racional ter vindo sem o coração. Sem a conexão com a alma, somos fragmentados. Estamos buscando o equilíbrio para que possamos entrar em contato com nosso Pai Céu e com nossa Mãe Terra. Para mim, não tem cura maior do que essa”.


muito grande diminua