Avatar: estamos desconectados
Avatar, em cartaz desde o dia 18 de dezembro, ainda encontra salas cheias e filas de espera para a compra de ingressos nos melhores cinemas. O filme tem a maior bilheteria mundial da história e encanta os espectadores não apenas pelos efeitos visuais, mas também pela trama. Ao retratar com tantos detalhes e sutilezas a maneira como vive o povo Na’vi, na terra de Pandora, Avatar nos lembra de quanta qualidade pode haver nas relações humanas, na interação com o coletivo e na maneira como lidamos com o meio ambiente. E vai além. Em Pandora, os habitantes se sentem parte da natureza, pertencem ao todo, não se consideram superiores a nenhuma outra forma de vida e matam apenas para defender a própria vida ou para se alimentar. Ainda assim, ao abaterem um animal, demonstram respeito e rezam para que seu espírito volte para Eiwa, a “Mãe Divina”.
Dentro de um clã, a hierarquia é constituída com base na sabedoria e no grau de consciência dos líderes e cada integrante ocupa no grupo a função que melhor exerce, exatamente por ser algo que pulsa a partir de sua essência mais íntima e transborda. O amor é o sentimento que os conecta e é expresso em uma frase muito profunda: “Eu vejo você”. A quantas pessoas dizemos “Eu te amo” com sinceridade, mas não seríamos totalmente honestos se disséssemos “Eu vejo você”, tão voltados que estamos para nós mesmos? Quantas vezes nos relacionamos muito mais com as projeções que criamos sobre outras pessoas do que com o que elas são de verdade?
É bem provável que o segredo da felicidade e da plenitude experimentadas pelos Na’vi esteja nos fios que os conectam a tudo e a todos com que se relacionam. No momento em que ocorre a conexão, os dois seres conseguem acessar um ao outro, e um se sente como o outro se sente – ora, não é esse o legítimo significado da palavra compaixão? A metáfora não é ficção. Todos nós, seres humanos, temos também nossos fios – não físicos, mas energéticos – que têm o poder de nos ligar a pessoas, plantas, animais, ambientes, situações e memórias. No entanto, temos o hábito de nos prender a mágoas, tristezas e dores ou a nos apegar possessivamente a pessoas ou a momentos felizes que já aconteceram, em vez de usarmos nossos cordões para trocar fluxos de energia, de consciência e de amor no presente.
As relações na terra de Pandora são possíveis, são humanas e ressoam em nossos corações. Por que nos afastamos tanto disso depois que sobem os créditos, as luzes se acendem e tomamos o caminho de casa? Arrisco-me a dizer que não foram apenas os belíssimos efeitos especiais em 3D que fizeram de Avatar o maior sucesso da história do cinema. Quem sabe não são nossas essências, muitas vezes sufocadas pelo mundo externo, se reconhecendo na telona?

