De lixo, das baratas e de mim
Logo que me mudei para São Paulo, três coisas me impressionaram: a rodoviária Tietê (que parece um shopping!), a praticidade do metro e a quantidade de lixo nas ruas. Um ano e meio depois, posso dizer que qualquer lugar com escada rolante ou elevador me surpreenderia positivamente, diante das condições horrorosas da rodoviária de Belo Horizonte e que o empurra-empurra do transporte público supera meu encantamento com as facilidades do metro.
Mesmo sabendo que em São Paulo “tem de tudo”, a cidade já não me assusta com o que tem a mostrar, mas o lixo…esse ainda me deixa boquiaberta. Eu sei, eu sei. Aqui tem muita gente, por isso é natural produzir muito resíduo, o poder público não cumpre bem seu papel e blá, blá, blá. Nem vou entrar no mérito. Só não consigo achar normal a entulheira de sacos de lixo que é jogada na rua e carregada pela chuva para as bocas-de-lobo até dar um empurrãozinho bastante razoável para as enchentes. Aí a paulistada se assusta, acha ruim, xinga a chuva (!), a prefeitura, uns aos outros e por aí vai. Também não vou entrar no mérito, mas a dica é: esse não deveria ser o ciclo natural dos descartes.
Outra coisa que me deixou muito impressionada por aqui foram as milhares de baratas que aparecem em qualquer casa, por mais limpa que seja. Estatisticamente, posso dizer que matei uma por semana, em média – e a contragosto. Nesse quesito, meu comportamento é um bocado padrão. Sabe aquelas moças que ficam histéricas por causa de barata? Sou eu. Ficava, mais do que histérica, brava porque, além de tudo que tenho de fazer diariamente, ainda precisava separar um momento do meu dia para dar fim àquele bicho nojento. Pois é, quem tem “argh” de barata leva algum tempo para criar coragem de transformar aquele inseto asqueroso numa meleca amassada ainda mais asquerosa. Eca!
Por isso, embora não apenas por isso, passei a passar uma água em todos os recicláveis que retivessem restos orgânicos como caixa de leite, pote de iogurte, pacote de biscoitos. Isso evita meleira, cheiro, chorume e, claro, baratas. Ter uma lixeira para orgânicos e uma para reciclados, aliás, não custa nada e é uma grande ajuda para as cooperativas. No meu prédio, é assim em todos os apartamentos e funciona muito bem e cada vez melhor.
Não estou dizendo que tudo correrá tão bem em todos os lares que se dispuserem a fazer o mesmo, mas digo que é o mínimo que podemos fazer. Ainda que o porteiro faça o manejo incorreto do lixo, que a coleta seletiva da sua cidade seja ruim e que seus vizinhos não deem a mínima para a sustentabilidade. Isso acontece, mas são passos futuros. Vamos começar do começo: dentro da sua casa, o que você faz? Porque se a coisa já começa torta, não tem como terminar bem.
E, cá entre nós, quem se sente bem morando numa cidade com sacos de lixo aberto pela rua de onde saem milhares de coisas misturadas e nojentinhas? Pode até parecer discurso de ecochata, mas é uma questão de salubridade e de bem-estar.



Incrível. Eu estava lendo uns textos sobre Shambhala e tem muito disso de cuidar da casa, do ambiente interno como reflexo do que fazemos no mundo. Porém os adeptos da Shambhala não podem matar as baratas, rs. Vamos ter q conviver com elas
A rodoviária do Tietê e o metrô também foram as coisas que mais me impressionaram em São Paulo quando visitei a cidade. A terceira foi a quantidade de mendigo dormindo na rua. Achei triste demais.
Quanto ao lixo, de que vale separar dentro de casa se os lixeiros de BH (e região) jogam tudo no mesmo caminhão e levam pros aterros sanitários (que ficam, inclusive, na cidade onde eu morava até o mês passado)? Isso acontece no meu bairro atual (de capital) e no meu trabalho (uma universidade). Quase morri do coração quando vi as faxineiras pegando os três recipientes coloridos (que ficam grudados uns nos outros) e virando todos juntos num mesmo saco de lixo. Encheram o prédio de lixeiras novas, cartazes e panfletinhos sobre a importância da reciclagem pra quê? Já ouvi que mesmo assim é importante continuar jogando os resíduos em lixeiras separadas pra “criar o hábito”, mas convenhamos, né, o hábito de descartar lixo direito eu crio num dia, mas isso tem de servir pra alguma coisa senão eu desisto desse mundo!