Feminino e masculino: a separação é ilusória



Feminino e masculino: a separação é ilusória


Por Thays Prado e Manoella Oliveira

A terapeuta Monika Von Koss tem sede de novidade. Desde que se formou em Psicologia, busca novas técnicas que auxiliem seus pacientes em consultório. Começou com a Psicanálise e, com o tempo, foi introduzindo trabalhos bioenergéticos e corporais de tradição tibetana e, mais tarde, também incorporou uma visão transpessoal e espiritualista. Em meio a tantas buscas, o tema do feminino lhe surgiu por acaso, num grupo de estudos sobre Consciência na comunidade de Nazaré, quando uma das integrantes trouxe, de um congresso na Costa Rica, o livro A Deusa Interior. Ali se abria um novo universo para ela e para tantas pessoas que se beneficiaram das palestras, workshops e grupos de estudo que ela montou sobre as deusas e o feminino. Desde então, Monika passou a devorar todos os livros e informações que encontrava pelo caminho. O fato de mesmo as mulheres abordarem o tema da feminilidade a partir de uma visão masculina sempre a incomodou. E então ela percebeu que precisava escrever sobre o assunto. Para ela, em uma cultura baseada na escrita como a nossa, o feminino só poderá ser reinserido em nossa sociedade dessa maneira. Monika entende o feminino de uma perspectiva feminina, não o considera um simples complemento ou contraparte da polaridade masculina. A diferença pode ser notada em suas palavras.

Tato: Por que quando falamos sobre o feminino ainda o fazemos de uma perspectiva masculina?
Monika von Koss: A tradição do feminino é oral. As histórias eram contadas de uma pessoa para outra, de boca para ouvido e se transformavam dependendo do contexto. Quando se escreve, os conceitos se tornam fixos. Como os primeiros registros através da escrita já começam em um momento em que estávamos vivendo no masculino, tudo o que chegou até nós estava carregado pelo olhar do masculino. Quando leio livros escritos por mulheres reproduzindo uma visão masculina, me questiono em que medida elas também precisam entrar em contato com seu próprio feminino.

O que você define por feminino e masculino?

Enquanto o princípio masculino é o da linearidade, que embasa o raciocínio estruturado e hierárquico, o feminino é circular, ele enxerga a totalidade. Todos nós temos dois hemisférios no cérebro. O esquerdo, chamado de masculino, comanda o lado direito. Ele discrimina, classifica, separa e distingue as coisas. O hemisfério direito, feminino, comanda o lado esquerdo e vê a totalidade. Quando eu aprendo a ver a totalidade e os elementos que a compõem, ao mesmo tempo, estou no cérebro total, no campo do holográfico.

O feminino não tem nada a ver com ir ao cabeleireiro ou ser dócil, como as pessoas dizem. Isso é muito conveniente, mas não é nada disso. Kali, por exemplo, é a deusa que destrói o que precisa ser destruído. Existem várias deusas iradas. E todas essas qualidades pertencem também ao feminino. As pessoas dizem: os homens caçavam e as mulheres coletavam. Será? O grupo inteiro se deslocava por grandes áreas. As mulheres se deslocavam no ritmo das crianças, dos velhos e dos doentes, mas se elas ficassem na caverna esperando os homens voltarem para alimentar os filhos, todos morreriam de fome e nós não estaríamos aqui. Os mais jovens e fortes iam atrás das manadas, mas isso era esporádico. Tinha que se comer todo dia e as mulheres eram responsáveis por 80% da alimentação do grupo. Outra ideia é de que pelo fato de os homens serem caçadores eles eram mais agressivos. Sei… E as mulheres ficavam lá, coitadinhas? Claro que não. Elas eram tão robustas quanto eles e além de tudo, ainda tinham que ter força para gestar, parir, amamentar e carregar os filhos.

Quando dizemos que o mundo construído pelo Patriarcado precisa resgatar os valores femininos, do que estamos falando exatamente? Seria um retorno ao Matriarcado?

Eu não gosto da palavra Matriarcado, porque assim como o Patriarcado, implica no mando de uns sobre os outros. Eu prefiro a expressão “Matrístico”, usada por Maturana, que são as sociedades cujo centro era a mãe. Significa que na origem de tudo tem uma mãe, mas não quer dizer que ela domine. Mas não vivemos no tempo deles, apesar de haver registros disso em nossas células. Precisamos entrar em contato com essa essência e trazer as qualidades para a nossa vida diária. Muitas pessoas estudam o Feminino Sagrado e se esquecem que esse é também o nosso feminino cotidiano. O que define o feminino é um modo de perceber, de sentir, de conhecer e de estar no mundo. E sua grande qualidade é o reconhecimento de que tudo e todos têm valor. Com o masculino, desenvolvemos nossa individualidade, não somos mais apenas um coletivo, e ninguém vai abrir mão disso. Agora, precisamos criar uma comunidade de indivíduos em que cada um é honrado e respeitado e a participação de cada pessoa é reconhecida e valorizada. Isso é o que o feminino pode trazer. Como uma mãe que tem 17 filhos e cuida de cada um de acordo com as necessidades específicas de cada um. Porque os filhos não são todos iguais.

Podemos dizer que estamos presenciando a reintegração do feminino e do masculino atualmente, nos movimentos feministas e ecológicos, por exemplo?

O movimento ecológico está associado ao movimento feminista porque o raciocínio é o ecossistema, onde todos os elementos têm o mesmo valor. O masculino diz qual é o ser mais importante, o maior, enquanto o feminino entende que se tiramos um ser daquele ecossistema, muda tudo. Não precisamos excluir os olhares feminino e masculino, mas associá-los. Quando se fala de feminino e masculino, imediatamente, muitas pessoas associam esses conceitos a homem e mulher. Como sentir é do feminino e pensar é masculino, nggormalmente, faz-se a distinção equivocada de que as mulheres sentem e os homens pensam. E já que nossa sociedade separou pensar e sentir e deu mais importância ao primeiro, nos desequilibramos. Homens e mulheres precisam pensar amorosamente e amar sabiamente.

Essa seria, então, a integração entre feminino e masculino?

Em meu livro, Feminino Masculino, mostro que essa é uma dicotomia ilusória, porque ambos estão dentro de todos nós. Pense numa gestação, que é o universo da mulher por excelência. Por nove meses, passivamente, ela gesta um bebê e não há muito o que fazer, a mulher apenas deixa acontecer. Mas na hora de parir, ela tem que fazer força e entrar em ação. É o yin trabalhando internamente e o yang que externaliza. Todo mundo tem isso na vida.

Subindo uma dimensão, poderíamos traduzir essa polaridade de feminino e masculino por amor e verdade. O quanto de amor e o quanto de verdade há em uma situação? O amor conecta e a verdade separa, criando espaço para a individualidade. Se eu tenho excesso de verdade, tenho separatividade; se tenho excesso de amor, tenho grude, apego. Precisamos do equilíbrio.

Tirando os aspectos culturais, existe algo que diferencia um homem de uma mulher?

Se você está num corpo de mulher você está diferente do que se tivesse em um corpo de homem, não há a menor dúvida. A diferença básica é a constituição diferente do corpo de cada um. As mulheres são cíclicas, elas variam suas taxas hormonais ao longo do mês, e os homens têm um funcionamento mais linear. O mundo funciona a partir da perspectiva dos homens: todos os dias temos que trabalhar nas mesmas condições e as mulheres se adaptam.

Seria correto dizer que as mulheres têm, naturalmente, uma habilidade maior para vivenciar o feminino e os homens o masculino?

Eu diria que há uma facilidade resultante de milênios de prática. Não sei se a nossa alma é feminina ou masculina, mas em qualquer cultura, a linguagem para falar de alma é feminina. Enquanto o corpo teria uma polaridade mais masculina. De alguma forma, isso tem uma ressonância em nós. As pessoas têm uma frequência vibratória mais masculina ou mais feminina. Tem mulheres mais masculinas e homens mais femininos. As generalizações de que a mulher tem que ser assim e o homem tem que ser de outro jeito nos empobrecem. A primeira coisa que a gente vê numa pessoa é se ela é um homem ou uma mulher. Isso porque o nosso ego gosta de definir. Temos a ilusão de que se eu sei definir você, eu sei quem você é e estou no controle.

Em um mundo com mais consciência, como seria a nova mulher?

Eu acho que a gente precisa parar de pensar em como seria uma nova mulher e um novo homem. Porque, assim, a divisão continua. Como seria uma nova sociedade em que todas as pessoas tivessem valor por fazer parte dela? Haveria homens mais rústicos e mais sensíveis, mulheres mais agressivas e mais delicadas. Eu diria que o modo como uma mulher expressa uma força cósmica é diferente do modo como um homem expressa essa força cósmica, mas também é diferente do modo como outra mulher a expressa. Cada ser é único. O “somos todos um” não quer dizer que somos todos iguais. O ponto é como a gente pode reconhecer o valor único de cada pessoa, independentemente de sexo. Enquanto seres, enquanto almas, nós todos já encarnamos como homens e como mulheres. E isso é apenas uma forma transitória.

O que precisamos encontrar é um modo honroso de conviver, de mulheres entre si, de homens entre si e entre mulheres e homens. Temos que parar de olhar para o outro como objeto do meu desejo, como minha propriedade, em que eu cuido do meu filho e o filho da vizinha que se dane. Vamos olhar os nossos semelhantes como semelhantes. Esse é o feminino que está chegando. O princípio masculino não é negativo. O problema foi desqualificar e eliminar uma parte, o feminino, deixando o mundo unilateral. É isso o que precisa ser transformado. A totalidade não tem gênero.



2 Comentários

    Thays,
    Maravilha de entrevista e síntese contextual!!! Usemos esse texto!
    Obrigado e abs.

  • vc fvtgcgtb

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