Um novo sonho de cerquinha branca
Por Thays Prado
Aniversário de 25 anos de casamento.
O casal faz uma espécie de balanço da trajetória.
Ela:
– Em todo esse tempo, do que você se arrepende?
Ele, refletindo:
- De muitas coisas. Se pudesse voltar no tempo, faria muitas coisas diferentes.
- Mas de uma coisa tenho certeza: eu teria me casado com você.
Essa cena não pertence a nenhum filme, novela ou peça de teatro romântica. Tampouco havia espectadores, para quem se pudesse exibir algum tipo de felicidade fabricada. Tratava-se de uma conversa íntima, só entre os dois, que eu tive o privilégio de saber por eles próprios, também em uma conversa íntima. Me fez pensar… Adoraria poder ouvir e poder dizer a mesma frase sincera a alguém com quem tivesse escolhido partilhar a vida.
Será que todo o sonho da casinha com cerquinha branca, um casal de comercial de margarina, filhos alegres e educados, cachorro, jardim e um cenário interiorano americanizado – vendido aos montes em qualquer esquina com qualidades de produção que vão do grotesco ao refinado – poderia ser substituído por essas poucas palavras trocadas entre ela e ele?
Já me respondi que sim e que não, o amor deveria ser mais do que isso. Mas, nesse exato momento, vejo o diálogo como uma espécie de síntese do que poderia ser uma relação amorosa saudável. Mas resolvi destrinchá-la. Qual será o meu sonho de cerquinha branca?
Não ligo que o quintal e o jardim se resumam a algumas flores regadas pelo porteiro do prédio e uma garagem. E tudo bem se o muro for alto e houver a triste cerca elétrica que nos separa de nossos iguais. – Parêntese: não estou tentando resolver os problemas do mundo nessa descrição, apenas falar de uma relação amorosa entre um casal. – O carro do ano, um taxi, ônibus ou metrô fazem pouca diferença em uma capital cheia de tráfego. E não me importa que você seja um homem ou uma mulher. Dispenso os bichos de estimação, que sofrem em apartamento, mas aceito, se você os quiser muito. E abro mão da tranquilidade das ruas para viver em uma cidade que nos dê mais oportunidades profissionais de fazermos o que gostamos.
Mas não abro mão do amor, do brilho entre nossos olhares, da liberdade inquestionável de ir ou ficar e da vontade muito sincera de ficar. Desejo cumplicidade – sua em meus projetos, minha nos seus – e entrega de corpo e alma nos nossos. Respeito e aceitação das nossas diferenças são um pré-requisito que nem será preciso ser cobrado quando nos acharmos pelo mundo. Que sempre haja abertura para ensinarmos um(a) para o(a) outro(a) e aprendermos juntas(os). Que a competição não seja necessária. E que um desejo incontestável de compartilhar cada momento vivido longe ou perto pulse em nossas palavras – ou no nosso silêncio. Que reconheçamos a beleza de nossos corpos, por mais distantes que eles estejam dos modelos sociais estabelecidos. E que estejamos sempre conectadas(os) pelo coração. Que o sexo não precise de palavras ou performances, mas seja um encontro verdadeiro, muito íntimo e prazeroso entre dois seres que se amam e se querem. Que o ciúme não faça sentido, porque sabemos do nosso laço e do comprometimento que está muito além da obrigação de não trair. Que haja espaço para amigos. Que haja espaço para cada um(a). Que nossa companhia nos impulsione a crescer e nos aproxime cada vez mais da nossa individualidade, da nossa real essência. Se um dia escolhermos filhos – biológicos, adotivos, meus, seus e, em qualquer caso, nossos – que saibamos ensinar a eles o que aprendemos com esse amor. E ainda que ele não dure para sempre, que saiamos melhores do que chegamos e encontremos novas pessoas que estejam na mesma sintonia.
Por mais que esse sonho tenha alguns elementos às avessas, um sonho de cerquinha branca é sempre um sonho de cerquinha branca. E para não correr o risco de me fixar nesse cenário ideal e passar pelas mesmas frustrações que gerações inteiras, especialmente de mulheres, enfrentaram diante da vida muitas vezes bem mais real do que gostariam, aqueço meu coração com o que ainda acredito ser bem, bem possível de acontecer e elevo minhas intenções e minha vibração energética para que eu possa ser reconhecida em todo o cosmos por aquelas e aqueles que compartilham do mesmo sonho. Mas mantenho meu peito aberto e meu olhar livre para o novo. Porque o mundo está se transformando, as pessoas passam por transmutações diárias e é preciso que haja espaço para que os sonhos também acompanhem o fluxo de evolução. Que a cerquinha branca seja cada vez mais original.



A cerquinha branca lembrou as longas conversas da sala… Conversas de sonhos.
Carrego o sonho do sobrado antigo, de portão baixo, com cadeira de balanço na entrada e gato na varanda. A roseira é mais que um símbolo. A porta, apesar de ser de uma cor berrante, é da década de 60… Ou seria melhor aproveitar minha juventude do século XXI com mais de 60 amantes?
Querer bater bolo no domingo parece significar não ter o menor senso de gratidão por aquelas que queimaram sutiãs.
O bom é que toda cerquinha branca tem um portãozinho no meio… O que conseguimos há duas gerações atrás (ainda estamos em processo de conquista, eu sei!) foi a chave do cadeado. E isso não podemos perder.
Bom, fim de tarde na rede. Seja ela a da varanda ou a virtual.
Abçs
Ah… a cerquinha branca. Como deixar de ser romântico e sonhar com ela? Eu, mineiramente e quase poeta da vida que sou, não consigo. E fico feliz que estou rodeado por pessoas que também compartilham dessa visão. A felicidade pode demorar, mas chega. Acreditar é preciso. Viver é um risco necessário. Como eu não me canso de repetir, citando nosso velho e sempre jovem Cazuza: “Vem comigo, no caminho eu explico!”, porque a “vida é louca e breve”.
Apaixonante!Eu como uma pessoa incondicionalmente romântica, agredeço ao Miguel por ter me proporcionado o prazer de conhecer um trabalho tão, como dizer, tão sem cortes, entre o que é ser feminino ou masculino!
Essa perspectiva da “cerquinha branca” tomada foi muito interessante, pq é realmente verdade, todos queremos o amor,mas ele não tem sempre a mesma roupagem, é preciso que aprendamos a amar e ser amados , mesmo que não tenhamos a ” cerquinha branca” pq essa imagem é só uma dentre as várias perspectivas que a vida nos oferece.
è preciso saber encergar muito além! Pq se nos prendermos aos paradigmas é provável que por falta ” cerquinha-branca” deixemos de viver uma história linda!
Eu sonhava com a ” casinha branca de varanda” , mas hoje percebo que minha casinha branca ele poderá “ser” e “existir” ainda que eu viva em um apartamento, numa cidade tumultuada. Porque minha casinha branca ela vai estar lá todos os dias quando eu sair trabalho e subir as escadas ou pegar elevador e abrir minha porta!
Realmente “viver é um Vício”
[...] Por aqui, eu continuo seguindo com o meu velho “novo sonho de cerquinha branca“. [...]
Sabe, esse foi um dos textos mais sinceros que já li.
Viver com sonhos não é ilusão e nem bobagem, como dizem. Para alguns, pode ser um sentido de vida, seja na vida profissional ou na pessoal ou na social, o que for.
Eu também tenho sonhos e uma “cerquinha branca”.
Mas claro que não dá pra ficar só nos sonhos, idealizando e idealizando, porque na minha opinião as decepções acabam tomando um tamanho maior do que o esperado.
E nem dá pra ficar vivendo sem sonhos, porque acredito que aí acabamos vivendo sem objetivos e assim corremos o risco de nos contentar com migalhas perto do que seriámos capazes de conquistar.
Aliás, sse texto me lembrou de uma palestra na faculdade em que uma profa. dra. disse “Enfim, cabeça na lua e pé no chão!”. Realmente. Precisamos ter uma cabeça cujos nossos sonhos estão além do que possuímos e um pé forte e resistente para alcançá-los.
Fantástico! Estou adorando o que vocês produziram e estão produzindo…!