Um pedido de silêncio
“Eu acho que você deveria…”, “Mas você não pode pensar assim”, “Pense que tem gente em situação muito pior”, “Pelo menos você tem isso ou aquilo em que se apoiar. E eu, que…”, “Você cria sua própria realidade, se isso está acontecendo, você precisa mudar suas crenças”, “A responsabilidade por ele ter feito isso é sua, você dá abertura demais para certas pessoas”, “Ei, isso é bobagem, não fique assim”, “Não chore”, “Não fique triste”, “Faça alguma coisa!”, “Isso passa”, “Se eu fosse você…”
Eis aqui algumas das minhas mais frequentes falas a meus mais amados amigos em seus mais difíceis momentos. Qualquer que seja o problema, visto de fora, ele pode parecer simples, insignificante, bobo até. Mas de dentro, do ponto de vista de quem sente, sofre, chora, ele é muito importante e merece respeito, consideração e espaço. Eu, com minha insistente mania de psicologizar a vida e ser terapeuta dos que amo, passei boa parte do tempo, até agora, dando conselhos a qualquer um que me viesse com um problema. Um estranho que passasse por mim distraído e me ouvisse falar poderia ter a falsa impressão de que eu tinha a solução para todos os males do mundo – mas a sensação era minha. Apesar de me deparar diariamente com minhas próprias questões e, na maior parte das vezes, não ter qualquer ideia do que fazer com elas. Aí era a vez dos meus mais amados amigos “me darem o troco”, com a melhor das intenções, não tenho dúvidas.
Mas esta semana acho que o universo se encheu e resolveu me dar um “acorda, minha filha!”. Uma de minhas amigas mais queridas, a quem já dei os mais diversos conselhos, palpites, opiniões e pitacos; a quem já falei, falei, falei, muitas vezes sem me dar conta do impacto de minhas palavras; para quem já escrevi e-mails quilométricos com a pretensão de “manuais de como viver bem e feliz”, me escreveu um e-mail contando sua dor. Confesso que enquanto lia cada linha, viciosamente ia pensando no que diria a ela sobre todas as suas queixas. Até que me deparei com uma frase, lá no final, que dizia: “Não quero que se preocupe, nem mande e-mail me xingando pra me dar um “choque de realidade”. Dispenso. Já tem realidade demais por aqui”.
Parei.
Talvez tenha sido a primeira vez em anos que eu tenha realmente parado diante de uma pessoa que sofre. Voltei para o início e resolvi reler o e-mail – ou lê-lo de verdade pela primeira vez. E percebi que, em seu lugar, eu também não teria a menor ideia do que fazer. E talvez estivesse até mais triste, perdida e mesmo desesperada. Incomodamente, fiquei sem ação. Mas, por incrível que pareça, era tudo o que minha amiga precisava. Que eu não fizesse nada. Que eu apenas a lesse e soubesse o que estava acontecendo com ela.
Para garantir que eu aprenderia bem a lição, o universo resolveu completar seu sacolejo. Nesta mesma semana, eu também fiquei triste. Não importa muito o motivo. Apenas digo que, hoje, eu não quero conselhos. Quero um abraço, um colo, um olhar atento, um lenço, um sorriso, um suspiro junto com o meu. Quero um silêncio que me diga, mais do que qualquer palavra, que não estou sozinha e seja lá o que for que aconteça, que ainda haverá alguém do meu lado – para qualquer coisa e, principalmente, para nada.



Eu sou assim. Sou daquelas pessoas amigas que sempre tem aquelas palavras “mágicas”, achando que vou fazer milagres mas, na realidade, não consigo mudar muita coisa na vida de quem amo. Melhora um pouco no início,mas depois tudo volta a ser como antes… cada um seguindo o que acha certo para tocar suas vidas. Adorei seu depoimento.
Tem gente que tem por hábito dar conselhos gratuitos, e tentar resolver a vida alheia como se a sua fosse exemplarmente sem tropeços. Então, a gente quer apenas “desabafar”, botar prá fora prá ver se cala a voz interior, que não pára de repetir o sofrimento, mas a pessoa não entende, e ao invés de simplesmente ouvir e dar seu colo, temos que além do nosso próprio problema, lidar com a ansiedade dela, que não sabe, nunca sentiu, nunca experimentou coisa semelhante ou se experimentou, acha que a solução é como roupa comprada pronta, serve prá qualquer um. Amigos e amigas, vamos lembrar que às vezes o que nos falta é apenas colo, um ombro prá chorar, um lenço de papel na hora certa, e que o outro no fundo sabe que é plenamente capaz de resolver e superar o problema. É tudo questão de tempo e cada um tem o seu.