A vibração da dança
A movimentação de uma aula de dança é a mesma para todos os bailarinos. Serão o mesmo professor, música e trabalho corporal. Ainda que a turma seja desnivelada, em algum momento, todos os alunos vão conseguir executar todos os passos e apresentar a mesma coreografia em cena. Em outras palavras, vão conseguir acompanhar a matéria. Repetir sequências de passos é algo que qualquer ser humano pode fazer, basta imitar.
Por que, então, percebemos que algumas pessoas, no meio de um grupo fazendo exatamente a mesma movimentação, se destacam? Você pode imaginar motivos como flexibilidade, curvatura do pé e facilidade para se equilibrar. Até ajuda, mas não se trata disso, afinal, cada bailarino tem pelo menos uma habilidade na dança e não existe uma que chame mais a atenção do que outra: uma abertura de 180º no ar não é melhor nem pior do que um giro triplo. Num grupo, se destaca, necessariamente, quem produz o movimento de dentro para fora.
Não adianta olhar o colega e tentar copiar. Pode ser um bom auxílio para aprender a dinâmica, mas a vivacidade de um bailarino que se destaca entre muitos é uma luz própria, que não vem de estímulo externo nenhum. Isso tem muito a ver com a personalidade de cada um e, claro, com entrega.
Quando um bailarino dança uma música de que gosta, interpreta papéis que admira ou simplesmente está ali sentindo e transpirando cada acorde e transmitindo com um traço de interpretação pessoal, ele vibra diferente. Muito diferente de quem está ali de olho no espelho, inseguro da coreografia que faz. Insegurança trava e quem trava não flui. Cadê a dança?
E é aí que me lembro o quanto as professoras, principalmente de balé, erram feio quando obrigam as crianças a sorrir no palco. É a transmissão de uma emoção totalmente artificial, tensa, por ser obrigatória e por ser a que o outro exige que elas sintam. Eu, enquanto dei aula, procurei fazer com que minhas alunas curtissem o que estavam fazendo para que a expressão corporal como um todo – sim, isso inclui o rosto - mostrasse prazer, satisfação, alegria, empolgação, vida. E é tão mais fácil quando o sorriso brota em vez de ser criado…
Dançar é uma expressão corporal completa, fala absolutamente tudo de uma pessoa. Quando a coreografia e o ritmo encontram similaridade com a personalidade de quem dança, ela dança feliz, extravasa e se destaca de uma maneira aparentemente indecifrável. Quando existe conflito, a pessoa não fica muito à vontade no próprio corpo e é diferente. Se for um bailarino tecnicamente bom, ok, ele vai dançar tecnicamente bem e só. Pode ficar na primeira fila e ainda assim vai sumir no grupo.
Pessoas tímidas não dançam ocupando muito espaço da sala, pessoas rígidas vão mostrar linhas do corpo bastante acadêmicas, pessoas extrovertidas tendem a se soltar em sequências “mais circulares”. Não, não são conclusões de pesquisa, mas de mais de 20 anos de observação.
Dançar é uma maneira de se abrir para o mundo e se conhecer melhor. Acredito que os tímidos que começam a dançar ocupando mais espaço na sala, fisicamente falando mesmo, iniciam o processo de derrubar uma fichinha dentro de si que altera seu padrão de comportamento para melhor. Vale a pena colocar no corpo o que queremos alterar no mental porque nós sabemos que o mental altera o nosso corpo.
Você dança? Que tal experimentar alguma movimentação e ver o que o seu corpo tem a dizer sobre você? Além de ser uma das melhores maneiras de aproveitar seu tempo de vida, pode ser um novo caminho para descobrir o que te toca e eleva sua vibração.
Polina Seminova, uma das minhas bailarinas favoritas ( ao lado de Fernanda Diniz e Svetlana Zakharova) em uma coreografia com uma expressão sincera, sem figurino ou personagem. Por isso mesmo, emocionante.



Legal, Manoella! Concordo com você!
Em qualquer dança, não precisa ser profissional, a que se destaca é “a dança acontece antes da dança”, ou seja, a dança que acontece dentro e se exterioriza, sendo o bailarino ou o “dançante” um veículo de expressão de algo muito maior! Muito boa observação! Beijos, Maria Helena