O pulo do gato



O pulo do gato

Por Thays Prado

Minha avó não gosta de gatos. Desconheço a razão, mas sei que ela se assustou bastante com um exemplar da espécie há mais de 48 anos, quando estava grávida de minha mãe. Minha mãe não gosta de gatos. Além do possível trauma da gestação, teve um filhote agarrado próximo a seu pescoço quando era criança. Eu nunca gostei de gatos, simplesmente porque não aprendi a gostar. Por 24 anos, isso me bastou sobre o assunto. Evitei os gatos que pude, fiz as caretas que achei necessárias nos lugares ocupados por eles e, pela falta de contato, senti medo dos que se aproximavam demais. Definitivamente, não sabia lidar com aqueles bichos.

Minha atual namorada tem um gato, que vive solto em seu apartamento, com livre acesso a sofá, cama, banheiro, cozinha, colo, tudo. Não gostei de vê-lo ali pela primeira vez e confesso que torci para que ele fosse viver com a avó ou qualquer outra pessoa que pudesse cuidar bem dele – não sou um monstro – mas bem longe de mim!

Nem pensei em ameaçar com o truque do “ou ele ou eu”, porque sei que perderia. E dou razão a ela. Faria o mesmo em seu lugar. Não por uma questão de amor, mas de soberania sobre seu próprio espaço. Consegui negociar que ele não subisse na cama ou entrasse no quarto enquanto eu estivesse por ali. E pedi que ele e seus infinitos pelos brancos não ocupassem o sofá na minha presença. Era exigir demais. Toda vez que ele fazia a mínima menção de que pularia ali, eu pulava junto, me assustava, reclamava. A situação era chata, desagradável para mim, para minha namorada e certamente para o bichano.

Chegamos a um ponto em que a relação, já frágil por outros motivos, era abalada a cada novo susto. O impasse parecia não ter solução: o gato não iria embora, ela não tolerava a minha dificuldade – bem que poderia, mas não era o caso – e eu sentia medo e desconforto com ele ali. Diante do problema, percebi que a única variável dessa equação era eu. Só eu poderia mudar – aceitando o gato ou indo embora de vez. Era evidente que o meu amor pela minha companheira era infinitamente superior à falta de afinidade com o bicho.

Então, num dia desses, percebi que o Sr. Tiger estava prestes a subir no sofá. Respirei, me acalmei e decidi que, desta vez, não iria me assustar. Era uma espécie de laboratório comigo mesma. Ou um tratamento de choque em que a vítima é posta frente a frente com o que lhe aflige e, de repente, aquilo não a aflige mais. Foi o que aconteceu. Ele subiu, eu não pulei, ele se aproximou, passei a mão nele, ele deitou ao meu lado e se aconchegou no meu colo. Confesso que gostei. Desta vez, foi minha namorada que se assustou com a cena inédita e me recompensou com um de seus incríveis beijos. E logo disse: viu como é bom não fazer escolhas se baseando no passado?

A frase me chamou a atenção. Era exatamente isso. Não era apenas uma questão de salvar meu relacionamento – que tinha vários outros desafios além desse -, mas de mudar minha atitude viciada sobre uma situação específica. Fiquei me perguntando quantas vezes agimos diante de algo que aparece em nossas vidas tendo como referência apenas o que fizemos em outros casos parecidos, o que fizeram conosco quando estávamos do lado oposto, ou o que aprendemos que deveríamos fazer. Foi bom olhar para o momento presente e decidir, naquele exato instante, que atitude eu gostaria de tomar. Me deixou mais livre e me fez ver que, a cada segundo, temos escolha sobre qual será nossa postura diante do que o universo nos apresenta. Acho que é a isso que o pessoal que trabalha com autoconhecimento chama de recuperar o poder pessoal. O melhor de tudo é que dá para praticar esse aprendizado a qualquer hora, com qualquer assunto.

O Sr. Tiger tem um pelo macio e é o indivíduo mais dócil de sua espécie, pede carinho, se esforça para não subir na cama e, tenho certeza, limpa as energia da casa. Ainda prefiro os cachorros e mais ainda um apartamento sem bichos. Mas que o Sr. Tiger não nos ouça. Ele pode se chatear.



3 Comentários

    Ah, que lindo esse post. Amei!
    Tenho certeza que o Sr. “Tiger” também vai amar, já que, segundo a veterinária, “…ele conversa!” ;)
    Parabéns pelo blog!
    Beijos ♥

  • Gatos são bichos extremamente carinhosos. Como é gostoso o ronronar de um bichano enroscado no colo da gente… Tenho dois, que amo demais!
    bjos, meninas!

  • Ei Thá!

    Lendo essa reportagem pensei muito na nossa republica com a chegada da Vicky hehe
    Tadinha de vc! Desculpe se a presença dela te incomodou (e eu acredito que sim!), as vezes nao pensamos como nossas açoes afetam os outros. De qualquer maneira, agora ela é mamãe: teve os 6 filhotinhos mais lindos do mundo. Desde o ano passado ela esta em BH com a minha família, sinto falta dela!

    Estou amando o site!
    Super saudades de vc!

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