A enciclopédia da mulher
Em uma visita à casa do meu avô no feriado da Páscoa, minha mãe, mexendo em guardados, encontrou a Enciclopédia da Mulher (Ed. Globo), de 1958. Ela folheava e ria. “É engraçado! Eles acham que sabem tudo”, comentou. O livro trazia sugestões de infinitos utensílios domésticos que não poderiam faltar em casa, de ginásticas para “manter o corpo no lugar”, receitas que a leitora deveria saber preparar, dicas sobre higiene pessoal, etiqueta, costura e tudo quanto coube nas mais de 300 páginas que tentavam explicar para a mulher daquela época como a vida é e qual a melhor forma de lidar com seus desafios.
Para além das dicas práticas, havia muitas passagens que diziam, por exemplo, sobre as modernidades da época, quando já era aceitável que a mulher trabalhasse fora, enquanto esperava encontrar o homem a quem fosse destinada, entre outras idéias que já não fazem o menor sentido hoje – embora alguns ainda acreditem nisso, conscientemente ou não.
Antes que alguém pense que vou fazer o movimento fácil e previsível de levantar uma bandeira e me declarar uma mulher muito mais esperta do que as daquele tempo, aviso: seria um erro de anacronismo muito infeliz (de tão básico) e até meio hipócrita. Afinal, quantos manuais existem, ainda hoje, seja no formato de revistas, livros, filmes, sites, propagandas, fotos ou passarelas que nos ensinam, nas entrelinhas ou descaradamente, como uma mulher deve ser?
Apesar da ideologia por trás do livro, não condeno, por inteiro, a Enciclopédia de 1958. Ali, era possível aprender técnicas para facilitar o dia-a-dia, os trabalhos domésticos, dicas para cuidar de si, em alguma medida, entre outras utilidades. O grande problema desses manuais é que eles invertem, disfarçadamente, a lógica primordial das coisas. Se uma mulher gosta de cozinhar e acha importante dominar essa prática, é ótimo que exista um guia que a oriente a fazer isso com mais facilidade, rapidez ou sofisticação. O negócio complica é quando ela vai para o fogão não porque gosta, mas porque o livro disse a ela que, enquanto mulher, precisa saber cozinhar.
Não seria melhor que ela, primeiro, se conhecesse, soubesse do que precisa e gosta de fazer para, depois, procurar por alguma publicação que a ajude nessa jornada para tornar sua rotina mais gostosa? O conteúdo desses guias que ensinam “como fazer” pode ser útil, mas a parte que dita “como ser”, pessoalmente, me parece absurda.
Afinal, se na Enciclopédia da Mulher está escrito como ela deve preparar pratos exóticos para receber a família do marido, em caso de visita, fica subentendido que, como mulher, ela é responsável por essa tarefa, tem que saber cozinhar, deve servir à família do marido e por aí vai. Mais uma vez: se ela gosta, faz de coração, ok, mas é preciso diferenciar as falsas necessidades que a mídia e a indústria criam em nós, das necessidades que nos deixam bem de verdade.
Em outras palavras: não vem ao caso se é importante para você saber cozinhar costela de carneiro ou aprender 85 novas posições sexuais todo mês, desde que faça sentido para você e que esses desejos não sejam fruto de alguma ideia que colocaram na sua cabeça. Sempre haverá milhares de manuais para te empurrar em qualquer direção e, acredite, eles não estão preocupados em propor reflexão. Por isso, experimente e aprenda do jeito que você sentir que deve e se precisar de alguma dica prática, aí sim, recorra aos manuais que eles são ótimos!
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É justamente isso que eu penso, mas quando digo sou taxada de feminista. Acho que vou imprimir esse texto e andar com ele na bolsa.
O blog tá perfeito, meninas, parabéns!
Obrigada! E bem-vinda ao clube: as pessoas me chamam de feminista também. Mas tudo bem, Jean Shinoda Bolen diz que o feminismo é o lado yang do yin. Achei sensacional e prefiro encarar dessa forma.
Gostei
Escreve muito bem! Alias, esse assunto sempre cai com luvas para você não é?
Gostei do comentário acerca da enciclopédia. Encontrei uma enciclopédia no sebo e comprei por R$ 1,00… E concordo com você acerca da utilização e compreensão dos manuais.
Parabéns!
Olá.
Eu tenho esta enciclopédia! Quando eu era criança eu a achei, e já achava tão engraçado a maneira como eles achavam que a mulher devia se comportar. Lembro-me que a única coisa que eu tentei fazer foi ‘como ter um andar elegante’, mas agora já passou.
Tenho 16 anos e muita gente já me chamou de feminista, simplesmente porque eu deixo a minha opinião bem clara sobre essa “sombra” do passado que paira nos tempos de hoje. É tão ridículo o pensamento arcaico que as pessoas possuem e estas adoram dizer que são simplesmente “tradicionalistas”. Adorei o blog.
[...] aumentar o constrangimento? Leia nosso post sobre a Enciclopédia da Mulher, de [...]
ótimo texto. ótimo mesmo. abriu reflexão aqui mais que você imagina.
[...] Outro aspecto que vale destacar é que, diferente de grande parte do conteúdo voltado para as mulheres, a Tato não é um manual de comportamento para que alguém se torne perfeito de acordo com determinadas regras. Nós não ditamos regras, não existem verdades e padrões. Cada um faz suas escolhas e segue seu caminho da maneira que achar melhor, a partir da sua verdade. Existe um grande respeito às escolhas individuais. Escrevemos sobre isso neste post. [...]