Como descondicionar seu olhar
No bruto e violento mundo dos vikings, os dragões são considerados as mais terríveis pragas e exterminá-los é o que se pode fazer de mais importante na vida. É ali que vive Soluço, um jovem diferente de todos os outros: magro, inteligente e sensível, completamente inábil com martelos, machados, catapultas e as tantas outras ferramentas de massacre utilizadas pelo seu povo. Por isso mesmo, seu pai Stoico, líder dos vikings, procura mantê-lo bem afastado dos embates com as feras, afinal, ele sempre se mete em confusões e só atrapalha. Mas o sonho de Soluço é matar um dragão e, finalmente, ser reconhecido como um legítimo integrante de sua tribo.
Nessa busca desesperada por se tornar um verdadeiro viking, o garoto acaba ficando frente a frente com o Fúria da Noite, o mais temido dos dragões, ferido, e descobre que, no fundo, não deseja matá-lo. Enquanto vive um conflito interno entre o que sempre ouviu sobre aqueles animais e o que vê, com clareza, diante de si, Soluço constrói uma amizade profunda com quem deveria ser seu pior inimigo e se dá conta de que tudo o que os vikings sabiam sobre os dragões estava errado.
Essa é a trama do filme “Como treinar seu dragão“, em cartaz desde o dia 26 de março. Em uma história simpática e envolvente, Soluço nos mostra que olhar para a realidade como se fosse a primeira vez, livre dos “pré-conceitos”, dos condicionamentos e de tudo o que julgamos ser a única verdade sobre aquilo, pode nos revelar um mundo novo, mais amplo, mais cheio de detalhes, mais complexo e muito mais interessante. Um mundo que não perceberíamos se estivéssemos fixados em uma crença e com o qual jamais conseguiremos lidar com facilidade, se nos apegarmos às nossas certezas e mantivermos a rigidez.
Não é fácil desviciar o olhar, mas podemos começar a praticar com coisas muito simples – como observar um objeto que sempre esteve em sua mesa de trabalho ou em sua casa e enxergá-lo como se nunca o tivesse visto antes – e ir evoluindo para questões mais delicadas. Também vale prestar atenção nas frases que repetimos com frequência como: “eu nunca …”; “isso sempre acontece comigo…”; “é assim mesmo…” etc. Normalmente, elas revelam crenças que estão tão enraizadas em nós que acabamos nos esquecendo de que tudo pode ser diferente, se mudarmos um pouquinho o ângulo. Aliás, é o teólogo Leonardo Boff quem costuma dizer: “um ponto de vista é apenas a vista de um ponto”.
Esse pode ser um bom ponto de partida para encarar nossos dragões internos de outro jeito e descobrir coisas novas sobre eles. Se olhar bem, pode ser até que você perceba que eles nem são tão grandes assim, ou que com um leve toque, dá para usá-los a seu favor. Não custa tentar.



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