Já passei dessa fase
“Um dia você vai gostar”. Durante toda a minha adolescência, ouvi de amigos, em tom professoral, que em breve eu iria gostar de alguma coisa que me parecia sem graça ou sentido naquele momento. E falavam assim, como se eu fosse muito imatura para entender a maravilha de participar de alguns rituais com que eles já eram “capazes” de se divertir, como sair para beber cerveja. Sempre olhei com desconfiança para o discurso, preferia ver vídeos de balé, mas ficava esperando vir a tal fase. Quem sabe chegava a minha vez?!
Durante parte desses anos e nos posteriores, outra frase começou a aparecer com muito mais frequência: já passei dessa fase. Todo mundo passava de fase numa facilidade in-crí-vel. A vida era um jogo de videogame, afinal! Imagine o meu desespero ao ver que alguém já passara da “fase da cerveja” e eu nem havia chegado lá. Hoje, aos 26, acho que posso desistir da tal loira gelada. Tem gosto ruim e não há nada que eu possa fazer quanto a isso. Eu até poderia me acostumar a beber cerveja, mas há alguns anos, decidi que eu não preciso me acostumar com o que acho ruim, dado que a vida oferece milhares de outras possibilidades. Pra quê escolher a bebida amarga?
Tem muita gente que já passou da fase de beber até vomitar, de sair para a noite e competir quem pega mais, da fase do namoro sério e de achar que o cúmulo do desrespeito às regras é a delícia da anarquia e uma das faces do poder. De todos eles, ouvi que haviam passado de fase. Eu, que normalmente não me identifico com nada disso, percebo que minha falta de sentimento de pertença, um dos aspectos do feminino mais falhos em mim, está relacionada a esse tipo de situação.
E quando dizem que a época da faculdade é a melhor da vida? E que se você não se quebrou em três partes ou não conhece o desenho X você não teve infância? Nunca quebrei a perna e minha graduação foi legal, mas não passou perto dos tempos quando eu era criança e passava as tardes na casa da minha avó comendo docinhos, sem me preocupar com estágio ou provas.
De onde vem essa mania de dividir a vida de pessoas completamente diferentes em fases iguais e anular todas as experiências de quem sai do padrão? Existem experiências melhores ou piores? Penso que vivências são, invariavelmente, ricas e únicas, por isso, não faz o menor sentido estabelcer hierarquia entre elas. O que me lembra uma reivindicação antiga das mulheres que não, não queriam direitos iguais, mas queriam ser aceitas em suas diferenças.
Quero poder ir a churrascos, mesmo sendo vegetariana, ser bailarina clássica e fanzoca de Metallica, ser católica, enquanto ter religião está old fashion e, ao mesmo tempo, ler sobre assuntos esotéricos, e pensar que “tudo bem” porque, caretas de reprovação e sentimento de pertença aos frangalhos à parte, na verdade, está (e é) tudo bem.



bravo! ótimo texto. faz muito sentido e me ajudou a concluir coisas por aqui!
Adorei o post. Afinal, por que temos que parar de fazer alguma coisa só porque alguns anos se passaram?
Olá Manoella. Primeiro quero parabenizar pelo texto. Acredito que todas temos as fases em que nem chegamos, e também aquelas que os outros não passaram, mas nós sim. E isso não nos faz melhores ou piores, nos faz diferentes, algo que sempre seremos, por mais ‘iguais’ que pareçamos.
Queria parabenizar a todas da equipe do blog, estive procurando algumas informações na internet, e perdida que estava, me achei aqui. Li algumas coisas, consegui agum material para me ajudar, e me identifiquei com outras coisas que consegui pela pura pesquisa para construção do ser. Simplesmente.
Parabéns pelo blog.
Ótimo domingo e uma bela semana.
diasvermelhos.wordpress.com
Vc escreve bem…saiu ao avô e tem charme. Tem o que costumo chamar de “um grande texto”.Fico pensando após ler o site e o seu espaço em especial sobre “ser diferente”. Nada mais perigoso na vida que ser diferente. Pode-se morrer por ser diferente, é perigoso.