Os desafios da liderança feminina
Maria Lúcia Ghirardi, 57 anos, é cientista-chefe do Laboratório Nacional de Energias Renováveis, da Escola do Colorado, nos Estados Unidos. Filha de brasileiros, nasceu, por acaso, em Nova York, nos últimos dias de um longo estágio que seu pai fazia por lá.
Mais tarde, o acaso lhe foi útil. Quando cursava o quarto ano de Medicina, na USP, seu namorado decidiu fazer mestrado no Instituto Tecnológico de Massachussets (MIT). Na época, sentindo-se perdida quanto ao que fazer de sua vida profissional e tendo como única certeza o fato de que, embora gostasse muito da ciência, não levava jeito para cuidar de pacientes – porque sentia pena de suas dores -, casou-se e acompanhou o marido.
Estudou várias línguas, História, teve um filho, mudou-se para a Califórnia e decidiu focar seus estudos novamente na área de ciências. Percebeu um gosto especial pela fotossíntese, fez mestrado e doutorado.
Quando se separou, o ex-marido voltou ao Brasil e ela decidiu ficar nos Estados Unidos com o filho. Fez pós-doutorado em Washington, na área de Agricultura, e um segundo pós-doutorado na Escola do Colorado. Lá se encantou pelos processos de conservação de energia e, desde 1995, trabalha com a produção de hidrogênio a partir de microalgas. Muita gente tem apostado em seu trabalho, afinal, pode estar aí a saída para um combustível não poluente no futuro.
Há um ano, foi nomeada cientista-chefe do Laboratório de Energias Renováveis e lidera um grupo de 25 pessoas. Maria Lúcia esteve no Brasil, recentemente, para falar sobre seu trabalho – era a sua terceira palestra em português. Aproveitamos para conversar com ela sobre sua vida pessoal e perguntar o que se pergunta a quase toda mulher bem sucedida: como é que você conseguiu chegar onde chegou, dando conta de tudo? Ela mostra que, de algum jeito, é possível.
Você encontra algum tipo de preconceito no meio científico pelo fato de ser mulher?
Não sinto discriminação, mas, em geral, as cientistas, nos Estados Unidos, se dedicam mais à Biologia. Eu fui para a Biofísica, a Bioquímica e, nessas áreas exatas, há muito menos mulheres. É bom porque me sobressaio. Em outras áreas, em que há muitas mulheres, talvez eu fosse apenas mais uma. Mesmo no Brasil, na minha classe de Medicina, apenas 10% da turma eram mulheres e nós nunca nos sentimos diminuídas por isso.
Como você conciliou a tarefa de ser mãe e cientista ao mesmo tempo?
Tive muito suporte do meu marido, cuidávamos juntos do nosso filho. Em minha faculdade, também havia serviço de babás para os filhos dos alunos que já eram pais. Depois que me separei - meu filho estava com 9 anos, ainda precisava muito de mim -, as coisas ficaram mais complicadas, apesar de que, nos Estados Unidos, há muito apoio para pais sozinhos. Este, para mim, foi o maior desafio: o balanço entre a vida pessoal e a profissional. É muito difícil fazer as duas coisas bem. E sozinha, tive várias conquistas a fazer.
Acha que conseguiu encontrar esse equilíbrio?
Acredito que nem sempre as escolhas que fiz foram as melhores. Meu filho passou muito tempo sozinho. Eu gostaria de ter tido mais tempo com ele, mas estava em começo de carreira e achava que precisava correr atrás de uma oportunidade de emprego permanente, de um pós-doutorado… Se pudesse voltar atrás, faria diferente.
E você vê isso como um fato totalmente real ou tem aí aquela culpa de quase toda mãe?
A gente quer fazer tudo perfeitamente (risos). O lado bom é que ele se tornou independente muito cedo e logo já sabia tomar conta de si mesmo. Hoje, a gente conversa e ele diz que, realmente, eu poderia ter lhe dado mais atenção, mas que ele entende a situação. Boa parte do que eu sinto é culpa de mãe mesmo.
O que poderia ser feito para aliviar essa carga materna?
Eu não vejo melhoria possível sem repensar a divisão de trabalho e sem que haja o apoio da sociedade. A mulher acumulou muitas funções, mas vejo que os maridos têm mudado de atitude e assumido parte da responsabilidade, não tanto sobre a casa, mas, pelo menos, sobre os filhos. Conheço algumas famílias em que a mulher trabalha fora e o marido, em casa, para cuidar das crianças. Hoje também há muitas empresas que oferecem a possibilidade de a mulher trabalhar de casa. E tem várias creches com muita qualidade, com a vantagem de que as crianças aprendem a se socializar.
Como é para você liderar um grupo de cientistas? Sente alguma diferença entre a maneira como as mulheres e os homens lideram?
Estou gostando muito de ser mentora de cientistas mais jovens do que eu. É uma fase diferente da minha vida e está dando certo. Não sinto tanta diferença entre homens e mulheres quanto à ciência em si, mas em relação ao estilo de administração. Como mulher, tenho características mais femininas, trato os membros de minha equipe de um jeito mais pessoal e, até, mais emocional, e não acho ruim. Meu grupo tem muita mulher e várias delas já me disseram que se sentiram atraídas a trabalhar ali pelo fato de eu ser a chefe do grupo. Mas tenho tido que aprender a lidar de modo mais firme quando necessário, especialmente em relação aos homens. Isso me exigiu treinamento.
Nessa tentativa de ser mais firme, muitas mulheres acabam se masculinizando quando assumem posições de poder. Como evitar isso?
É verdade. As mulheres que ocupam cargos mais altos são, quase todas, mulheres bem firmes, não costumam demonstrar emoções. É claro que pode ser que elas ajam diferente nas relações individuais, mas, em público, assumem uma postura mais dura. Não é fácil, mas acredito que seja possível conciliar nossos aspectos yin e yang. E isso também depende muito da instituição, do grupo. Meu chefe anterior, por exemplo, não tinha esse toque pessoal no trato com a equipe, então, eles estão reagindo bem à minha liderança e me apoiam muito. Meus colegas sabem que sou humana, que tenho meus problemas pessoais, mas também não deixo que isso domine a conversa. Estou tentando.



Maria Lucia é uma pessoa admirável. A entrevista mostra sua imensa inteligencia, sensibilidade e modestia. É uma honra conhece-la. Felicidade e sucesso para voce!
que legal. confesso que não a conhecia antes, e gostei bastante da entrevista (e sucesso para ela nessas pesquisas!)
Bom artigo! Muitas vezes, é difícil ser um bom líder… Se você quiser ler mais sobre esse assunto eu recomendo o seguinte artigo: http://euquerotrabalho.com/desafios-da-lideranca.html
Boa sorte!
na vida tive uma conexão familiar com os ghirardi
e agora me deparo aqui com a M.Lúcia nesta entrevista
q vim a saber foi casada com um deles – o André
segundo filho de Caçula e Pietro
não a conheci pessoalmente
mas me impressionou muito sua lucidez e espírito
muito sucesso a ela,