Qual é a sua verdade?



Qual é a sua verdade?

Por Manoella Oliveira

O mundo está cheio de verdades. Se todas elas fossem tão verdadeiras como se propõem, não seriam um problema, mas uma grande (e bem-vinda) solução. Não seria preciso ter dúvidas, inseguranças nem dilemas. Afinal, as verdades estão postas, as respostas estão dadas. “Político é corrupto”, “O proibido é mais gostoso”, “(escreva aqui seu clichê)”. Nós sabemos que não é bem assim. Vou poupá-los da enfadonha discussão sobre a existência ou não da verdade e se ela é ou não alcançável. Além de chatésimo, seria absurdo racionalizar um assunto que não é acadêmico, mas interno.

“Por que você não come carne?”. Essa é a principal pergunta que sugiro não me fazer. Vem cá, eu te pergunto por que você come carne?! Eu não como porque acredito que seja melhor para mim dessa forma. Ponto. Nessa hora, aparecem milhares de pessoas segurando plaquinhas de deboche porque plantas são seres vivos tanto quanto os animais, porque somos o topo da cadeia alimentar, porque pesquisas provam que blábláblá e porque o especialista em qualquer coisa disse x. Tá. Independente da chuva de argumentos que virão, a minha pergunta é: por que alguém está questionando a minha escolha? Minhas escolhas, meu caminho, minha evolução, minha consciência, minha vida e o palpite dos outros. Dá para perceber qual elemento está sobrando nesse conjunto?

Não se trata de ser inquestionável. Claro que não. Eu sou cabeça-dura taurina, mas quem me conhece sabe que valorizo a troca e a reflexão acima de qualquer coisa – minha grande amiga Thays Prado, leonina, com quem converso sobre qualquer assunto durante horas, que o diga – se for para todos concordarem com todos, a discussão se resume a uníssonos “aham” e a gente não sai do lugar. É preciso haver interação entre as partes opostas, mas com o cuidado de saber como compartilhar e de não invadir o outro. Chama-se tato.

Outro cuidado necessário são aquelas interrogações que colocam na sua cabeça. “Ele é fiel?”. A quê? Ao que ele diz que sente? Ao contrato de exclusividade? Aos reais sentimentos dele? “Você gosta do seu trabalho?” Trabalhar pode ser bom? Eu preciso gostar da minha atividade ou do ela me proporciona com a renda que me fornece? Gosto em relação a quê? “Qual foi a melhor fase da sua vida?” Como você sabe quando começa e quando termina uma fase? Com o que comparar uma coisa que só se viveu uma vez e de uma única forma? Devo comparar minha alegria de criança aos sete anos com a do meu vizinho de porta? Como se mede alegria?

O mundo faz questionamentos muito íntimos e quer respostas pontuais sobre conceitos que construiu fora de nós. Nesse caso, todo e qualquer senso comum se transforma na ditadura da maioria: as pessoas enlouquecem tentando achar respostas que já seriam difíceis de ser encontradas ainda que as pessoas se encaixassem nesses conceitos – que nem sempre fazem sentido para elas. “Traição online é traição real?” A pergunta é essa mesmo? É esse o ponto? É isso que te toca?

O mundo precisa mudar as perguntas. Mas levou tanto tempo para que esses rótulos e definições fossem criados que levaremos mais um tempão para que caiam em desuso. Ou vão cair de uma vez, com um chute de algum grupo que vai falar justamente o contrário e pobre de quem entrar nesse vai-e-vem. Afinal, os conceitos são frouxos. Há milênios que as pessoas se matam em nome de Deus e elas nem sabem o que é isso. Tem gente que acredita no Deus da Igreja Católica, tem quem chame de Universo, tem quem chame de Luz, de deusas e tem gente que não acredita em nada, mas reza quando o filho pequeno adoece. Sim, as pessoas se matam por um conceito que nem elas conseguiram entender. Talvez, no fundo, seja tudo a mesma coisa com nomes diferentes. Até lá, elas vão discursar e se agredir. Você vai entrar nessa mesmo?

Para responder todas as perguntas pessoais, sugiro fazer uma outra que sempre aparece nas minhas conversas sobre a Tato: isso faz sentido para você, te move, te toca? Nem sempre é fácil responder isso racionalmente, mas, no fundo, a gente sempre sabe.

Uma interrogação que sempre colocaram na minha cabeça é o dilema entre dança e jornalismo. E já que é para falar de verdades internas, posso dizer que nesta semana tive que fazer um esforço real para não começar a dançar balé moderno ao som de uma música bacana no supermercado. Música e dança me movem. É a minha verdade se manifestando no meu corpo, embora isso não responda a clássica “você gosta mais de jornalismo ou de dança?”. Tudo bem. Mais uma vez, a pergunta não é essa.

Dança é expressão corporal, jornalismo é expressão verbal. Não importa de qual eu gosto mais. Ambos me emocionam, me ensinam e fazem parte da minha vida. Minha verdade, claramente, é a identidade, a expressão.

E você, sabe qual é a sua verdade?



8 Comentários

    Olá, obrigada por todos os comentários que recebi por email e pelo twitter. Fico mto feliz que vcs leiam e gostem do que compartilhamos aqui. Continuo esperando vcs “perderem a vergonha” e postarem os comentários aqui tb =) Beijos!

  • sim, conceitos são frouxos. acho que certos códigos e clichês funcionaram (percebeu o tempo verbal?) muito bem antes, então continuam sendo seguidos. provados errados ou simplesmente tendo ficado enfadonhos, já tem gente querendo ficar longe deles. mas isso significa refletir e, basicamente, criar outros código, elaborar outras ideias, se entender mais. e quem tem tempo para isso, não é mesmo, minha gente?

    belo texto, como sempre. vocês estão de parabéns ;)

  • Excelente o texto. Descolar a ótica do questionamento para antes dele mesmo é um exerício difícil. E só parando para refletir que percebemos o quanto, mesmo a gente não querendo, engole rótulos culturais goela abaixo.
    Beijos

  • [...] Prado Na semana passada, Manu, minha grande amiga e parceira de Tato, deixou, em mais um de seus posts inspiradores, a pergunta: “E você, sabe qual é a sua verdade?“. O assunto mexe muito comigo e, [...]

  • Achei incrível, parabéns.

  • Oi Manoella! Muito bom esse post.
    Há um tempo atrás fiz um com quase o mesmo título, rsrs, mas como o Bitola é debochado……
    Vi um vídeo do TED que fala da do Poder da escolha, muito bem apresentado por uma deficiente visual que não lembro o nome agora, vc chegou a assistir?
    Sucesso e Beijão!

  • Oi, Monik! Ótima pauta, tem post sobre isso no blog “A arte de escolher” -> http://www.maistato.com.br/2010/12/16/escolha-sheena-iyengar/

    Beijos!

  • O comentário de Tatiana Afonso da Silva, minha homônima, em que pese não retratar a minha realidade, vem me causando inconvenientes, razão pela qual, solicito seja referido comentário excluído imediatamente deste respeitado site.
    Conto com a compreensão dos administradores do site e, na certeza de ver atendido o meu requerimento agradeço antecipadamente.

    Tatiana Afonso da Silva

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