Um mundo de Verdade(s)



Um mundo de Verdade(s)


Por Thays Prado

Na semana passada, Manu, minha grande amiga e parceira de Tato, deixou, em mais um de seus posts inspiradores, a pergunta: “E você, sabe qual é a sua verdade?“. O assunto mexe muito comigo e, afirmo sem exageros, é um dos temas mais importantes em minha vida – coisa que meu mapa numerológico fez a gentileza de confirmar para que eu não me sentisse tão neurótica. Por esse motivo, em vez de ligar para a mais nova carioca do pedaço e responder apenas a ela, resolvi dividir com cada um(a) que lê essas linhas o meu conceito de Verdade.

E aqui vale fazer uma distinção entre verdade como contrário de mentira e o que eu poderia chamar de Verdade Interior ou Verdade Maior, que se oporia a tudo o que não faz parte da essência de uma pessoa. Nos dois casos, o que mais me encanta é o fato de que, enquanto a mentira ou as escolhas que não vêm do coração demandam um gasto enorme de energia para se manterem, a verdade se sustenta sozinha, ela é e ponto.

Verdade x mentira
Desde muito cedo se aprende sobre o papel social da mentira. Somos ensinados, condicionados e, eu diria, adestrados a mentir. Porque, normalmente, nas famílias e nas escolas, não há muito espaço para se dizer a verdade. Diante de uma mãe ou um pai que esbraveja “quem quebrou isso aqui???”, são poucas as crianças que terão a coragem de dizer “fui eu”. E, em vez de esse ser um momento de ensinarmos a elas sobre se responsabilizar pelas próprias atitudes, leva menos tempo dar uma bronca ou botar de castigo. E o pensamento infantil aprende rápido que mentir pode ser uma boa maneira de se safar de grandes encrencas e punições.

Logo a criança percebe também que a mentira pode evitar o sofrimento de pessoas queridas. Se, na primeira vez em que responde sinceramente que gosta mais do papai do que da mamãe, ela ouvir ou vir uma feição de desaprovação, logo saberá que não se deve ser tão honesto sobre os próprios sentimentos.

Com o tempo, descobrimos que a mentira também tem a importante função de nos permitir fazer o que queremos sem ter que bancar nossas escolhas. É assim que muitas adolescentes vão dormir com os namorados sem que os pais saibam e mobilizam duas ou três amigas para contarem a mesma história quando alguém ligar para saber onde elas estão. Vai dizer que frases como “ela está no banho”, “já foi dormir”, “teve que ir à padaria” ou “acabou de sair com a fulana” não fazem o menor sentido para você?

E tem muita gente que prefere mesmo ouvir mentiras e até dá um empurrãozinho para que o outro não diga a verdade, porque “a verdade dói“. Acredito que a verdade só dói quando existem expectativas sobre as escolhas dos outros e pouca tolerância àquilo que foge do que esperávamos. Ouvir um “eu sou gay” de um(a) filho(a) só dói se você esperava que ele(a) fosse hétero e não está disposto a considerar que ele(a) está feliz com sua orientação sexual. Um “eu não te amo mais” só dói porque se esperava receber amor – e, de algum modo, todo ser humano espera – mas, certamente, não dói mais do que descobrir que alguém, que lhe dizia “eu te amo”, mentiu para você a vida toda por conveniência, ou para não te magoar – como se você fosse tão frágil assim.

A vida toda, não nos faltarão estímulos para mentir. Porque mentir traz muitos ganhos. E a nossa capacidade de fazer afirmações falsas ou inventar histórias inteiras vai se tornando cada vez mais refinada. E permite o enriquecimento desonesto de alguns políticos, perpetua casamentos falidos, facilita o fechamento de certos negócios, aumenta a popularidade entre amigos e até salva a vida de quem vive num sistema com o qual não concorda, mas não tem a menor possibilidade de se rebelar contra ele.

A Verdade Maior
O mais triste é que, de tanto mentir para os outros, acabamos nos desconectando de nosso interior, de nossa essência, da verdade íntima que faz de nós quem realmente somos. Perdemos nosso referencial interno. E vai ficando cada vez mais difícil perceber o que é que faz total sentido para nossa alma, o que é que nos alimenta, o que nos move – independentemente de haver a aceitação ou a aprovação de qualquer outra pessoa.

Talvez esteja aí a fonte da infelicidade humana. Quantas escolhas fazemos todos os dias sem levar em conta o que verdadeiramente desejamos? Movidos pelo hábito, pela necessidade do amor do outro, pelas regras sociais não questionadas, por obediência a alguma hierarquia, pela pressa, pelo medo, pela inconsciência.

Fico imaginando como seria um mundo em que todos estivéssemos conectados com nossa Verdade Maior – aquilo que nos individualiza, nos torna únicos. E agíssemos sempre segundo nosso coração, sempre de acordo com o que mais fizesse sentido para cada um. “O mundo seria um caos! É necessário haver regras”, pode ser que alguém argumente.

Não acho que seria caótico. Acho que seria belo, rico, diverso, complexo – como é mesmo a natureza humana. E, provavelmente, os diálogos precisariam ser mais frequentes, até que as pessoas entendessem que a escolha do outro é apenas a escolha do outro – não tem nada contra você! E talvez os ciclos fossem mais dinâmicos, talvez as pessoas ficassem por menos tempo em nossas vidas, mas, certamente, a qualidade de suas presenças seria infinitamente maior. O orgulho não seria necessário. E haveria mais respeito – afinal, se tenho o direito de fazer o melhor por mim mesma, e me permito fazer, será mais fácil aceitar que o outro também siga a sua verdade.

Aprendi, no curso de Campos Energéticos, que concluí, no mês passado, no Espaço Caldeirão, que quando dizemos a nossa verdade, ninguém nos questiona. Desconfiei um pouco dessa afirmação, mas resolvi fazer um teste em minha própria vida e também andei observando algumas pessoas. É fato: as escolhas feitas a partir da nossa verdade não deixam dúvidas quando as comunicamos.

É a partir desse lugar de verdade e transparência que frases como “quero viajar sem você desta vez, mas isso não significa que eu não te ame, só preciso de um tempo para mim” não gerem desconfiança – porque são legítimas. Do mesmo modo, é quando dizemos com a certeza que há no fundo da nossa alma “acabou” – sem sinais trocados, sem que nosso ego sinta pena ou culpa – que o outro consegue se desligar também e ir embora de vez. É por meio de nossa verdade que nos percebemos íntegros e enxergamos a integridade de cada ser.

Eu sonho com um mundo construído a partir da Verdade Maior de cada um de nós. Eis a verdade de uma leonina, com mania de grandeza coletiva. Eis a minha verdade sobre a verdade.



2 Comentários

    Gostei.
    Bom, espero que não se importem de eu postar aqui a minha.
    Enfim, eu acredito que as regras são necessárias, mas não para subjugar nossa identidade, mas sim para nos orientar.
    Por exemplo, minha mãe me ensinou que “é melhor omitir do que mentir, e evite a última ao máximo”. Bem, quando ela me ensinou isso eu era criança, nem questionava só obedecia, e hoje eu sei que se ela não tivesse me ensinado isso quando eu não teria noção das coisas, não teria hoje a mínima noção do que significa assumir responsabilidades (seja por afazeres ou pelos meus atos), provavelmente desconheceria o peso que a frase “eu juro!” tem, e certamente não seria sincero! Hoje eu já tenho maturidade suficiente para examinar as regras e submetê-las à minha verdade, mas que bom que eu obedeci aos meus pais senão não teria essa personalidade!
    Na minha opinião, as regras não foram feitas para CORTAR a individualidade das pessoas, mas para PODÁ-LAS (pelo menos deveriam…!). As elementares (“isso é certo, e isso é errado”) precisam de mais diálogo e mais explicação (exemplo: isso é errado!/por quê?/é errado porque…)
    Bem esses são alguns dos meus pensamentos acerca disso.

  • Obrigada, André, por dividir conosco a sua verdade! Como eu disse no post, o mundo fica bem mais belo e rico assim :)

Deixe uma resposta