Sobre como o Universo deixou de acreditar em mim
Por Thays Prado
Imagem: Vanessa Siqueira
Eu fiz as contas. Nos últimos sete anos, entre 80% e 95% das páginas dos meus diários têm frases como “cansei”, “já chega”, “tenho que dar um jeito nisso”, “não vai mais acontecer” e a campeã “preciso mudar de vida“. Logo abaixo, costuma vir uma lista enorme de coisas que eu deveria fazer para que a minha vida se torne mais interessante e feliz. Isso sem falar nas invocações em graus variados de dramaticidade a Deus, aos anjos, aos santos, aos orixás, aos mestres ascencionados ou a qualquer ser de luz que esteja minimamente desocupado no momento em que eu escrevo.
Não, minha vida não é uma tragédia. Pelo menos não dessas que o senso comum poderia classificar como uma. Mas a verdade é que, há bastante tempo – tempo que praticamente coincide com a data da minha certidão de nascimento -, eu tenho estado afastada de mim. É claro que não se trata de uma sensação absolutamente constante.
Talvez você não imagine, mas nos outros 5% a 20% de páginas dos meus diários – a depender do ano – as frases predominantes variam entre “agora sim”, “finalmente me sinto em casa”, “estou no meu caminho sagrado”, “estou alinhada com a minha alma” e, claro, agradecimentos empolgadíssimos aos mesmos seres do bem que me ajudaram a achar um rumo.
Mas não dura. Não dura uma semana, até que o primeiro conjunto de expressões volte a circular dos meus dedos para o papel.
É difícil admitir, mas fui eu mesma quem criei esse eterno sobe e desce em minha vida. Começou sem que eu percebesse e eu não tenho a menor ideia de quando foi a primeira vez, mas o quadro evoluiu de tal forma que hoje não acordo antes de uma hora inteira apertando o modo “soneca”. Começo a arrumar a cama e paro no meio para dar um telefonema que poderia muito bem esperar; penso que gostaria de tomar um banho e vou checar e-mails, mesmo que não haja nenhum importante; mal pego uma apostila para estudar e interrompo no meio da primeira página se minha namorada me pedir companhia para dormir; me programo para ir ao cinema, mas aceito o pedido de outra pessoa mesmo sem vontade.
Você não ia querer ver a minha agenda… Uma vez uma amiga comentou: nossa, quantas coisas você consegue fazer em um único dia! Eu respondi: não, as que eu risco são as que NÃO consegui fazer! As que consegui são esses ‘oks’ pequenininhos aí do lado :/ Hoje ela se limita a dizer que eu tenho mania de querer resolver o mundo.
Foi assim… Diariamente, fui enviando pequenos sinais ao meu subconsciente e ao Universo de que eu não era do tipo que se leva em conta. Que por mais que eu dissesse, convicta – e eu realmente tinha certeza de que, desta vez, eu ia mesmo fazer aquilo! – isso não queria dizer muita coisa e podia até significar exatamente o contrário. Como posso esperar que depois de uma vida toda num mesmo padrão minhas intenções continuem a se materializar? Que o que eu desejo, verdadeiramente, para a minha vida seja interpretado como tal? Imagine a confusão do meu sistema interno e até dos pobres mestres, que eu continuo a requisitar, para entender qual parte da piada deve ser levada a sério! Não tem mesmo como funcionar bem…
Pode ser que tenha sido por educação ou delicadeza, mas ouvi dizer que esse é um traço comum entre os seres humanos. Um mecanismo que, muitas vezes, tem a ver com querer corresponder às expectativas do mundo e a suas próprias sobre si mesmo. Algo do tipo: prometo, ainda que apenas mentalmente, que vou fazer/ser o que esperam, mas como verdadeiramente minha intenção é outra, a promessa não é cumprida. O pior é que a culpa nos leva a prometer mais uma vez, ainda mais veementemente, ou a prometer outras coisas, por compensação. E o que a gente faz com essa armadilha? (Sim, estou supondo que não sou a única a agir dessa maneira. Por favor, dê o seu depoimento no final deste post para eu não me sentir tão louca).
A gente começa de novo. Escolhendo, conscientemente, o próximo passo. Literalmente. Vai atravessar a rua? Então diga, mentalmente, o que pretende fazer e faça. Quer começar um livro, escolha abrir a capa e ler a primeira página. Vai até a cozinha pegar um copo d’água? Não deixe que nada no meio do caminho lhe desvie do foco.
Trata-se de um pequeno exercício que aprendi com minha mestra australiana, sempre ela, para que meu subconsciente e todo o Universo entendam que podem, novamente, acreditar em minhas decisões. Também ajuda a prestar mais atenção antes de sairmos prometendo – e nos comprometendo – por aí.
Este post é meu primeiro passo, depois de tantos dias sem escrever para a querida Tato. Obrigada a você que escolheu, conscientemente ou não, chegar até o final dele.


Eeeeeepa que eu conheço bem essa sua amiga que diz tudo isso. Sou eu mesma!
Quem se propõe demais corre um risco mto maior de cortar coisas na agenda. Sei bem como é e fico mto incomodada em não conseguir “concluir”, mas, no meu caso, não é para atender o outro, é por boicote mesmo ou por não fazer o que eu gostaria de fazer – quem qr lavar roupa domingo e pagar contas? Mas a vida é requisitadora. Vou experimentar seu exercício e continuar focando em “concluir”. É um exercício simples de educação, como fazemos com as crianças. Boa sorte pra nós!
Me sinto da mesma forma, parece q o texto foi escrito por mim. Acho q na altura de minha vida, já dá pra perceber q se não consegui o q queria, foi por minha própria culpa. Sei como fazer as coisas diferentes, mas o difícil e me manter no ruma das conclusões… Antes mesmo do termino aquilo ou ficou muito difícil ou já não vale mais a pena. Adorei seu texto. Busco força em Deus para fazer tudo de maneira diferente, eu preciso, eu posso e eu vou conseguir.
Tenho certeza de que você vai conseguir, Verônica. E acho que uma boa maneira de começar é se perdoando também, é transmitindo a si mesma amor. Somos todos crianças diante de um aprendizado imenso que a vida nos convida a experimentar. Com amor e carinho próprios, certamente será mais fácil dar um passo de cada vez e valorizar nossas pequenas conquistas diárias. Boa sorte!
Oi, Thays! Não, você não é louca… ou é? Bem, pelo menos não é a única! Li seu texto com atenção e senti um calorzinho do peito, uma afinidade com suas palavras!
Parabéns, você escreve muito bem e com muita sensibilidade!
Thays, fique tranquila, vc não é louca! Já fiz muito isso e só modifiquei esta postura recentemente… e tem dado resultado.
Adorei ter descoberto o site de vcs… maravilhoso.
Bjo