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Ensina-me a viver

Por Thays Prado

Aos 19 anos, cheguei chorando ao consultório de um novo terapeuta, em Belo Horizonte, com uma queixa que já me acompanhava havia três anos: “eu só quero morrer”. Ao que ele me respondeu: eu não sinto que você queira morrer, Thays, eu sinto que você quer é viver! Porque morta, você já está.

Aquela frase dura me desconsertou. E sei que, na época, não fui capaz de compreender totalmente o seu significado. A verdade é que eu não tinha mesmo descoberto o gosto pela vida.

Na última sexta-feira, seis anos depois, me deparei praticamente com o mesmo recado. Desta vez, no teatro, diante da angústia de Harold, também com 19 anos, vivido por Arlindo Lopes, em uma atuação belíssima.

Assim como eu, Harold também não tinha se dado conta do infinito potencial criador e transformador da vida. Por isso, seu passatempo favorito – praticamente o único, aliás – era pensar em novas formas de suicídio para impressionar a mãe, que não sabia ouvi-lo e muito menos demonstrar-lhe amor.

Até que Maude, uma senhora de quase 80 anos e um coração jovem e cheio de energia, traduzida com toda a sensibilidade por Glória Menezes, cruza seu caminho e lhe ensina a saborear os pequenos prazeres da vida. A plantar uma árvore, apreciar um quadro, reconhecer a beleza única de cada margarida do jardim, a inventar histórias, a tocar um instrumento mesmo sem saber, a cantar, ainda que desafinado, e a rir de um bando de regras sociais aprisionadoras e sem sentido.

Impossível não se apaixonar por Maude. Impossível não amá-la e desejá-la profundamente. Seu jeito radiante e livre desperta o amor do jovem Harold, que quer tê-la para sempre por perto. E quando lhe parecia não mais poder viver sem ela, Maude parte e lhe ensina uma última lição: a de desfrutar o momento presente sem se apegar a ele, a deixar que a vida aconteça e siga seu fluxo, sem medo do próximo passo. E assim, Harold permite que sua dor imensa se transforme em uma alegria ainda maior e se apaixona pela vida.

“Ensina-me a viver” é a voz do meu terapeuta, novamente, a me dizer: “eu sinto que você quer é viver, Thays!”. É um doce lembrete do Universo de que não importa o quanto eu me sacrifique pelo meu trabalho, jamais será o suficiente para a lógica do mercado (então, será que vale a pena gastar tanta energia com uma perfeição inatingível?). De todas as pessoas queridas, mais cedo ou mais tarde, por um motivo ou por outro, deixarão de existir em minha vida (melhor aproveitar o tempo que temos juntos agora, em vez de me consumir com medo de perdê-las). De que o amor já está dentro de nós, e senti-lo é o que nos preenche (então, em vez de apego, talvez seja mais livre e prazeroso sentir gratidão por quem nos desperta esse sentimento tão nobre). De que preciso de muito, muito pouco para ser feliz de verdade (e pra que tanto esforço para alcançar ilusões de felicidade?).

Sim, eu quero mesmo é viver, e acho que já perdi tempo demais. Não vou desperdiçar mais um segundo sequer. Sabe o que vou fazer agora? Assistir a esse vídeo aí abaixo, que contém algumas cenas da peça e a trilha que eu achei lindíssima. Alguém me acompanha?

Ah! Ensina-me a viver fica em cartaz, em São Paulo, até o dia 27 de fevereiro, a preços populares!

Teatro das Artes – Shopping Eldorado
Avenida Rebouças, 3.970 3° Piso
Informações: (11) 3034-0075
sexta e sábado 21h30 e domingo 18h
R$30 inteira, R$15 meia entrada.



10 Comentários

    Olá Thays!

    Hoje passeando pela net, achei seu texto sobre Ensina-me a Viver.

    Confesso que fiquei emocionado com a história que dividiu com os leitores e feliz porque pude perceber o quanto o espetáculo te tocou.

    Nesses 3 anos de estrada muitas pessoas escreveram as suas impressões. Fui juntando tudo e resolvi fazer um livro onde conseguisse reunir parte desse material. O livro ficou pronto, muito bacana mas hoje lendo o que escreveu percebi que esse era um relato especial que poderia ter feito parte dessa seleção.

    Muito obrigado. Vou dividir isso com todo o elenco e equipe.

    Boa Sorte sempre! Merda!

    Um grande abraço,

    Arlindo Lopes.

  • Oi, Arlindo! Que alegria saber que você passou pelo blog e gostou do texto! Acredito que, enquanto o espetáculo existir, seu livro seria interminável. É visível na feição de cada um da plateia o quanto a peça mexe intimamente com a maioria dos espectadores. Parabéns a toda a equipe! Merda!
    Um beijo,

    Thays

  • Thays!

    Se rolar um segunda edição seu texto tem que entrar! rsrs

    bjo,

    Arlindo.

  • Thays!

    Através do seu blog descobri essa belíssima peça. E fui assistir em um momento muito especial da minha vida: no final de semana em que completei um ano de namoro! Hehehe! E até ganhei um presentinho da Glória Menezes e do Arlindo Lopes: http://twitpic.com/3tp9mb
    Continue compartilhando coisas boas como essa conosco, sim?

    Beijos!

  • Que legal, Tati ! Eu estava na M14 neste dia, acredita? Fico feliz q vcs tenham ganhado o livro. Volte sempre por aqui! Beijos

  • Olá Thais.
    Sabia da peça, mas passando no google conheci seu BLOG, maravilhoso como toca o sentimento do homem seus comentários e de como você olha e escreve o acontecido da peça. Vou assistir com certeza, pois a peça em questão é uma lição de vida para humanidade, pois o homem precisa saber viver.
    Um abraço.
    Elma.

  • Olá Thais.
    Sabia da peça, mas passando no google conheci seu BLOG, maravilhoso como toca o sentimento do homem seus comentários e de como você olha e escreve o acontecido da peça. Vou assistir com certeza, pois a peça em questão é uma lição de vida para humanidade, pois o homem precisa saber viver.
    Um abraço.
    Elma.

  • Oi Thais, também navegando, achei o seu blog.
    Ouvi na CBN uma entrevista com a Glória Menezes sobre a peça.Já vi o filme, e sempre gosto de lembrar o quanto vale a pena a gente aproveitar cada minuto da vida.
    Uma frase me tocou, dizia mais ou menos assim ” Não tenho medo do desconhecido, o que conheci já sei como é, e o que não conheço, quero conhecer”. Vale como receita de vida! Bjs, Vera

  • o que eu mais gostei quando eu fui assistir a peça foi do ator harold ele fala muito bem; e esse espetaculo foi o que eu mais gostei foi o mais bonito e com a atriz Glória menezes ainda para ajudar.
    Mas só uma coisa depois que eu assisti essa peça eu nunca mais fui a mesma pessoa depois de ver o ator harold

  • Olá Thays!

    Era garoto quando vi o filme na década de 80 tinha por volta 12 anos, hoje são 36. Foi maravilhoso e tenho lembranças deste filme até hoje. Quando vi o cartaz da peça não acreditei se poderia ser adaptada com qualidade, pois o filme é uma obra de arte, relutei para ver a peça. Quando soube que iria passar no CEU, dei um jeito de arrumar um convite e fui assistir, simplesmente lindo, muito fiel ao roteirista Colin Higgins e as atuações da época pois o filme é de 1971. Parabéns a todos pela peça e aconselho a todos a assistirem e a também o filme.

    Grato.

    Eduardo

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