De frustração e BTUs
Imagem Vanessa Siqueira + moonlight + la vida de un escarabajo + i’m in love with what you are
Frustração é um sentimento democrático: todo mundo sente e, muitas vezes, não só em causa própria, mas pelos outros. Para usar apenas um exemplo, único e definitivo, cito a bola na trave, em qualquer partida de futebol, desde que seja a do seu time. Mas além de chata, a frustração pode ser uma boa fonte de energia que, claro, deve ser gentilmente conduzida (ou transformada na marra) em várias coisas bastante úteis a você. Christian Aranha, engenheiro e psicólogo, cara e currículo de nerd, usa uma metáfora interessante para descrever esse processo.
Pense numa bolinha perfeitamente redonda que um dia leva uma mordida. É essa imperfeição que faz com que a esfera passe o resto dos seus dias tentando voltar à forma original. Sim, nós somos a bolinha e a mordida é a bola na trave, o doce bonito que tem gosto ruim, o email que ficou sem resposta. Para Christian, isso é o que faz seu corpo se movimentar e produzir energia, “é o fator que gera BTUs e faz você se mexer na vida”, diz.
Mas as pessoas são muito diferentes e é óbvio que o encontro de sexta que tinha tudo para ser agradável e foi um fiasco pode ser um bom motivo para alguém ficar em casa, curtindo uma fossa, no sábado, como também pode ser um excelente motivo para sair no dia seguinte e tentar salvar o final de semana. Tudo depende de quem está envolvido na situação. “Se for fazer algo que realmente queira fazer, a frustração é um bom combustível, assim como o amor. Um apaixonado pode subir um morro para pegar uma planta ou comprar uma flor. Tanto faz. A mensagem é: tudo pode ser aprendido e você pode fazer coisas”, afirma.
Christian diz isso por experiência própria. Mau aluno durante toda a sua vida escolar e com sérios problemas para se concentrar ao ler um livro, ele foi esculachado publicamente pela professora de português algumas vezes e ainda tinha que aguentar as brincadeiras dos colegas. Na época, bullying não era assunto sério.
A gota d’água foi não passar no primeiro vestibular por causa da redação. Foi isso que fez com que ele sentisse raiva, muita raiva, e frustração suficiente para canalizar essa energia e se tornar, hoje, alguém que une o estudo do doutorado em Inteligência Computacional Aplicada com o Pós-Doutorado em Ciência Cognitiva. Especialista em text mining e web 3.0, Christian nega com veemência (e em vão) a fama e a aparência de nerd, embora tenha como troféu o fato de ter deixado num passado bem distante a imagem de aluno que sempre perdia as férias para estudar e tentar recuperar os pontos perdidos.
Isso não quer dizer que ele tenha superado todas as dificuldades, que leia um livro de 500 páginas em três dias ou que tenha mudado de personalidade. Algumas dificuldades permanecem, claro, mas a teoria e a história de Christian mostram que “é possível fazer” e que frustração pode ser um estímulo muito forte para concretizar seus ideais. A parte boa é que as frustrações vêm naturalmente, assim como podemos sentir nossos BTUs no corpo pedindo por um movimento. E isso é um processo bem real, físico. Você já parou para pensar como lida com isso?



Acabei de confirmar: eu não sei lidar com frustração!