Mereceu o fim que teve?
Imagem AN Festival
Era uma vez, no século 19, uma garota muito bonita chamada Giselle. Ela morava numa vila, dançava maravilhosamente bem e tinha o coração bom. Aliás, o coração era seu maior problema: além de puro, era frágil. Giselle não podia passar por emoções fortes nem exagerar no bailado ou poderia sentir-se mal. Por isso, a mãe estava sempre por perto dizendo a ela que ficasse quieta, embora as amigas adorassem vê-la dançar.
Um dia, desses que deveriam ser apenas mais um dia, Giselle ouve alguém bater à sua porta e ao sair de casa, encontra um camponês, Albrecht, que faz de tudo para se aproximar dela. Tímida, Giselle tenta voltar para dentro de casa, mas o moço, muito insistente, não deixa que ela retorne. Para resolver seu dilema, ela resolve confiar no Universo e pega uma flor. Ao contar as pétalas, ela vê que o resultado vai ser mal me quer e abandona Albrecht. Ele sorrateiramente arranca uma pétala, diz a ela que contou errado e que o resultado correto seria bem me quer. Ela conta de novo (com a pétala a menos), confia no destino e eles começam a namorar. Albrecht fica muito feliz e promete a ela que eles vão se casar em breve.
Albrecht e Giselle se tornaram um desses casais melosos, que ficam se abraçando, mandando beijinhos e dançando juntos o tempo todo. Os beijinhos eram intermináveis, aliás. A mãe não ia muito com a cara do moço nem Hilarion, que era apaixonado pela jovem. Giselle estava cada dia mais feliz e tinha tanta sorte que a corte real que estava na cidade para a festa da colheita da uva foi justamente à casa dela provar o vinho da vila. Nesse dia, ela chegou a conversar com uma das mulheres da nobreza, Bathilde, contou que tinha um namorado, que sabia dançar e até ganhou uma joia.
No dia da festa da colheita, Giselle é coroada a rainha da vila e dança com Albrecht e todos os seus amigos. No meio da celebração, aparece Hilarion com uma espada, coisa cara, da nobreza, que diz ser de Albrecht. Não bastasse isso, ele atrai a corte para o centro da vila e Albrecht se dirige à Bathilde e a cumprimenta com um beijo. Assim, na frente de todo mundo.
Giselle, aquela do coração frágil, pede explicações e fica sabendo que Albrecht é um nobre disfarçado de camponês, que tem uma espada e, sim, tem uma esposa. É o suficiente para que ela enlouqueça, tenha um ataque do coração e morra. Giselle junta-se às Willis, espíritos de moças que morreram de desilusão amorosa, antes de se casar. Elas aparecem à noite e fazem os homens dançarem até a exaustão ou, em bom português, até a morte. Quando Albrecht vai visitar o túmulo de Giselle, elas aparecem, mas a camponesa o perdoa e impede as Willis o matem. FIM.
Moral da história
“Giselle” é uma história de amor e perdão, mas, para mim, e para quase a unanimidade das mulheres, Giselle é uma camponesa idiota que foi enganada desde o primeiro momento, quando Albrecht arrancou a pétala da flor. Ela foi enganada, morreu por causa de um homem que a fez de boba (aliás morreu pelo único homem que se propôs a conhecer) e terminou sem nada, inclusive foi banida do grupo das Willis já que enfrentou todas logo de cara para salvar a vida de Albrecht e passou o resto da eternidade sozinha.
Muitas dirão que ela teve o que mereceu tal qual disseram de Julieta outro dia, aquela que se apaixonou por Romeu, o único por quem não poderia se apaixonar. E apesar do blábláblá de “no coração não se manda”, são escolhas e elas fizeram as escolhas delas. Que paguem o preço. É?
Quando vi o balé ontem vibrei, como sempre, com a cena em que as Willis matam Hilarion quando ele vai visitar o túmulo – pulei essa parte na hora de contar a história para não ficar muito grande. É minha parte favorita de ver e de dançar. Se dependesse de mim, as Willis obviamente teriam matado Albrecht também ou a Giselle até poderia ter evitado a morte dele para mostrar que ela é muito melhor do que a esposa oficial, desde que ele se sentisse tão culpado e com tanto remorso que ele se matasse depois.
Mas a única coisa que consegui sentir pela camponesa foi pena. Foi dó de ter sido tão ingênua, de ter se deixado levar pelo primeiro cara que conheceu (sem referencial fica difícil, né?), por ter ficado feliz pelos motivos errados, por uma história que só aconteceu na cabeça dela e, finalmente, de ter se entregado de verdade. Será que o preço da entrega precisa ser tão alto? Como dito no início do post, a gente não tem resposta para tudo, mas você pode deixar seu palpite aí embaixo.
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“tal qual disseram de Julieta outro dia”. Hahaha
Eu comentando no post e escutando ao fundo: “Julieta, Julieta”. Aí vou ver e tinha começado a passar o filme na TV. E aí, qual a moral da história? Medo!
Pois é! Sua revolta virou post. Veja Giselle o quanto antes. De preferência, ao vivo. Dá dó, viu? Muita dó…por outro lado, é incrível como o Albrecht só aparece no palco quando lhe é conveniente. Muito semelhante à vida real, não? tsc tsc