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O feminino no dia-a-dia

Por Manoella Oliveira e Thays Prado

Imagem: Vanessa Siqueira + Off my love

Ser mãe, sedutora, sensível e frágil, características comumente associadas às mulheres, eram atribuições rejeitadas pelas pioneiras feministas. Para elas, isso não passava de artimanhas masculinas para aprisionar as mulheres dentro de casa e submetê-las ao poder dos homens. Com o intuito de lutar pela igualdade entre os sexos, o movimento feminista pregava a negação explícita de qualquer manifestação de feminilidade. Mas as moças acabaram misturando dois conceitos: “ser mulher” e “ser feminina”.

Leonardo Boff e Rose Marie Muraro, no livro Feminino e Masculino, desfazem essa confusão ao esclarecer que o feminino é um conjunto de características, presentes no homem e na mulher, que representam o mistério, a integralidade, “a capacidade de pensar com o próprio corpo, de decifrar mensagens escondidas sob sinais e símbolos, de interioridade, de sentimento de pertença a um todo maior, de receptividade, de guardar no coração, de poder gerador e nutridor, de vitalidade e de espiritualidade”. Da mesma forma, a mulher tem seu lado masculino, naturalmente, que “exprime o outro polo do ser humano, de razão, de objetividade, de ordenação, de poder, de materialidade e, até, de agressividade”.

De qualquer maneira, não se pode negar que o movimento feminista foi muito importante para abrir às mulheres um espaço de expressão além do ambiente da casa. A psicoterapeuta Patrícia Cuocolo fundadora do Núcleo do Feminino do Espaço Integração, em São Paulo, acredita que a história não poderia ter sido diferente. “O movimento foi agressivo, sim, mas foi uma forma de compensação desse aprisionamento. Era preciso fazer alguma coisa ou o feminino se perderia para sempre. No entanto, a mulher acabou assumindo uma posição masculina, porque só o masculino era valorizado. Ela precisou se expressar assim, retirando a guerreira de dentro de si, para competir com os homens. Só que a mulher não luta com armas, e sim com a alma”. Por causa disso, começaram a surgir pelo mundo várias iniciativas isoladas, como o movimento hippie, a Nova Era e os cultos marianos, na tentativa de resgatar e valorizar a feminilidade, sem que fosse necessário abrir mão das conquistas das últimas décadas.

Na prática

A iniciativa para essa reconexão com o feminino começa dentro de cada um. Karina Guimarães, integrante da ONG Rodas da Lua, que se propõe ao resgate do feminino a partir da teoria do milionésimo círculo, diz que a imagem que lhe vem à cabeça é a da pedra, lançada no centro do lago, que cria ondas que se propagam por toda a água. “Quando participo de algo que me liga a minha essência interior, venho com outro astral, trato melhor as pessoas com quem convivo, procuro melhorar o ambiente em casa e no trabalho. As pessoas a minha volta vão ser contagiadas com aquele estado de espírito e vão passar isso pra frente”.

E é possível dar espaço ao nosso feminino com pequenas atitudes, que passam por perceber o sagrado em nós, nos outros e até nos mínimos detalhes do cotidiano. “É afrouxar a calça, entrar em contato com a terra, aproveitar um banho, reverenciar o próprio corpo, dançar, usar saia, cozinhar, se relacionar com o outro”, enumera Karina. Ela esclarece que não se trata de voltar a “ser Amélia”, mas de se ligar ao simples e perceber o poder de criação que é inerente a nosso ser. É revalorizar os rituais, que dão importância a cada instante. Karina acrescenta que se a mulher se permite, há inúmeras possibilidades, que vão desde pôr a mesa até elaborar um projeto rebuscado.

Leonardo Boff defende que precisamos entender o conceito de feminino como um princípio inerente ao ser humano para que os homens também se sintam incluídos, descubram sua dimensão feminina e transformem suas atitudes competitivas e subordináveis em comportamentos mais cooperativos e igualitários. A estrutura patriarcal não somente oprimiu as mulheres, mas também impediu os homens de manifestarem sua feminilidade. Segundo Boff e Muraro, o homem, ainda hoje, tem dificuldade em integrar o feminino em si, e a mulher pode ajudá-lo nessa tarefa de “autorregeneração”. Dar aos homens condições eficazes de participar da vida privada e cuidar dos filhos pode ser uma boa saída para se acabar com a relação dominante/dominado, que, de acordo com os autores, é a origem de toda a violência do patriarcado. Para a fundadora do Núcleo do Feminino do Espaço Integração, a reconexão passa pela ligação entre os lados esquerdo e direito do cérebro. “É preciso pensar, sim, mas com coração, é preciso ter atitudes, sim, mas com consagração”.

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iniciativa para essa reconexão com o feminino começa dentro de cada um. A iniciativa para essa reconexão com o feminino começa dentro de cada um.



2 Comentários

    Olá

    Na verdade Boff está errado e contraria ninguém menos que a Deus. Foi Ele quem criou dois sexos e eles são diferentes. E quem é honesto chega a mesma conclusão, como este Doutor da Universidade de Virginia:
    http://www.youtube.com/watch?v=0ecq3OXYZpc

    Julie Maria

  • Olá, Julie. De fato, os dois sexos são diferentes, eu concordo com vc. Neste post, estamos falando de aspectos que estão presentes em ambos os sexos, como cooperação, acolhimento e integralidade, por exemplo, entre vários outros. Nem eu e nem o Boff afirmamos que homens e mulheres são iguais, mas existem características essencialmente humanas que não podem ser divididas entre homens e mulheres como se tivéssemos que escolher entre uma e outra, de acordo com o sexo. Somos humanos. Acreditamos que para haver completude e equilíbrio é preciso ter yin e yang juntos. É uma questão de equilíbrio. Continue acompanhando o blog e vc vai entender do que estamos falando. Abraços!

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