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Síndrome de domingo

Por Manoella Oliveira

Imagem: Vanessa Siqueira + Th3 City LightsRooh B. Bear 

Desde que me entendo por gente, ouço as pessoas falarem mal de domingo. Se for domingo à noite, piorou. Tem quem comece a se coçar só de ouvir aquela musiquinha do Fantástico (e a gente ouve. Nem que seja da televisão alta do vizinho). Não me convenço de que o problema desse dia seja anteceder a segunda-feira. Igualmente, desde que sei qual é a diferença entre os dias da semana, sei que depois de domingo vem segunda, portanto, não faz sentido sofrer com um evento semanal. Ficar mal por rotina não é muito esperto, né?

Se continuarmos desse jeito, daqui a pouco tempo vamos detestar sábado à noite porque ele vem antes de domingo, aquele dia terrível, e vamos acabar detestando os únicos dois dias que compõem o nosso final de semana. É a nossa mania de sofrer por antecedência.

Domingo é um dia de comércio fechado, de menos movimento na rua, de pouco barulho e de programação horrorosa na tevê. É dia de silêncio e eis aí a origem real do problema. A gente para. Não tem chefe, não tem trabalho, não tem trânsito, não tem nada para encher a nossa cabeça e somos obrigados a nos voltar para dentro de nós. Domingo acaba sendo dia de faxina mental.

Ainda que a gente insista em ligar a tevê e ver qualquer coisa que não exige muito do nosso intelecto, não estamos sintonizados com aquilo. Não é bem esse ou aquele programa que vai prender nossa atenção. É nessas horas que vamos rever conceitos, as relações amorosas, repensar o emprego, como (não) temos cuidado do corpo, conversado com quem realmente gostaríamos, achado divertido viver, planejar o futuro.

Bate um incômodo que só conseguimos sentir quando paramos de fato. Na correria do dia a dia, entre buzinas dos carros, não dá para ouvir, não para sentir, mal dá para ser quem realmente somos.  É preciso formalizar, cumprimentar, sorrir, não se exaltar, é preciso, é preciso, é preciso, já diria Drummond.

Se você faz parte do time de quem acha domingo uma lástima, aqui vai minha confissão: eu entendo. Faxina mental é para os fortes. Quando a gente se olha de frente, olha para a vida de fora e lembra que o tempo está passando, surge algo próximo a angústia. A notícia boa é que são esses pequenos sinais que vão nos guiar de volta para o eixo, como uma dor de cabeça que indica que algo no seu corpo está errado. Os pensamentos de domingo, a dorzinha no fundo do peito não são nenhuma ameaça ou motivo de tristeza, mas apenas cochichos de que algo precisa ser revisto. Reveja.



4 Comentários

    Faz quatro meses que vivo um domingo atrás do outro. Tá fácil não!

  • sempre disse isso. domingo não é um dia ruim, é um dia que “não tem o que fazer”, e as pessoas não conseguem ficar quietas e/ou com elas mesmas…

  • Hj percebo que meu dia tem pequenos domingos. Optei por não ler/ouvir música durante a ida para casa ou para a pós, no ônibus ou no metrô. A princípio, para curar uma insônia – qdo deitava a cabeça no travesseiro, a cabeça não parava de processar o q rolou no dia. Mas depois vi que as pausas (os domingos) são oxigenadas necessárias, processamentos da agitação anterior. A angústia faz parte, mas nosso mundo tb faz tudo pra sufocá-la a qq preço, transformando-a em doença, em transtorno. Mas ela, em certa medida, tem a sua utilidade, como o post colocou bem.

  • Domingo não é um dia ruim, Fernanda! É um dia “para os fortes”, como vc :P É bom a gente parar pra pensar, mudar de problemas, mudar de vida. O tempo tá passando. Não dá mais tempo de ser infeliz. Bom domingo pra todo mundo!

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