Síndrome de domingo
Imagem: Vanessa Siqueira + Th3 City Lights + Rooh B. Bear
Desde que me entendo por gente, ouço as pessoas falarem mal de domingo. Se for domingo à noite, piorou. Tem quem comece a se coçar só de ouvir aquela musiquinha do Fantástico (e a gente ouve. Nem que seja da televisão alta do vizinho). Não me convenço de que o problema desse dia seja anteceder a segunda-feira. Igualmente, desde que sei qual é a diferença entre os dias da semana, sei que depois de domingo vem segunda, portanto, não faz sentido sofrer com um evento semanal. Ficar mal por rotina não é muito esperto, né?
Se continuarmos desse jeito, daqui a pouco tempo vamos detestar sábado à noite porque ele vem antes de domingo, aquele dia terrível, e vamos acabar detestando os únicos dois dias que compõem o nosso final de semana. É a nossa mania de sofrer por antecedência.
Domingo é um dia de comércio fechado, de menos movimento na rua, de pouco barulho e de programação horrorosa na tevê. É dia de silêncio e eis aí a origem real do problema. A gente para. Não tem chefe, não tem trabalho, não tem trânsito, não tem nada para encher a nossa cabeça e somos obrigados a nos voltar para dentro de nós. Domingo acaba sendo dia de faxina mental.
Ainda que a gente insista em ligar a tevê e ver qualquer coisa que não exige muito do nosso intelecto, não estamos sintonizados com aquilo. Não é bem esse ou aquele programa que vai prender nossa atenção. É nessas horas que vamos rever conceitos, as relações amorosas, repensar o emprego, como (não) temos cuidado do corpo, conversado com quem realmente gostaríamos, achado divertido viver, planejar o futuro.
Bate um incômodo que só conseguimos sentir quando paramos de fato. Na correria do dia a dia, entre buzinas dos carros, não dá para ouvir, não para sentir, mal dá para ser quem realmente somos. É preciso formalizar, cumprimentar, sorrir, não se exaltar, é preciso, é preciso, é preciso, já diria Drummond.
Se você faz parte do time de quem acha domingo uma lástima, aqui vai minha confissão: eu entendo. Faxina mental é para os fortes. Quando a gente se olha de frente, olha para a vida de fora e lembra que o tempo está passando, surge algo próximo a angústia. A notícia boa é que são esses pequenos sinais que vão nos guiar de volta para o eixo, como uma dor de cabeça que indica que algo no seu corpo está errado. Os pensamentos de domingo, a dorzinha no fundo do peito não são nenhuma ameaça ou motivo de tristeza, mas apenas cochichos de que algo precisa ser revisto. Reveja.



Faz quatro meses que vivo um domingo atrás do outro. Tá fácil não!
sempre disse isso. domingo não é um dia ruim, é um dia que “não tem o que fazer”, e as pessoas não conseguem ficar quietas e/ou com elas mesmas…
Hj percebo que meu dia tem pequenos domingos. Optei por não ler/ouvir música durante a ida para casa ou para a pós, no ônibus ou no metrô. A princípio, para curar uma insônia – qdo deitava a cabeça no travesseiro, a cabeça não parava de processar o q rolou no dia. Mas depois vi que as pausas (os domingos) são oxigenadas necessárias, processamentos da agitação anterior. A angústia faz parte, mas nosso mundo tb faz tudo pra sufocá-la a qq preço, transformando-a em doença, em transtorno. Mas ela, em certa medida, tem a sua utilidade, como o post colocou bem.
Domingo não é um dia ruim, Fernanda! É um dia “para os fortes”, como vc
É bom a gente parar pra pensar, mudar de problemas, mudar de vida. O tempo tá passando. Não dá mais tempo de ser infeliz. Bom domingo pra todo mundo!