O problema dos triângulos
Por Thays Prado
Imagem Vanessa + abduzeedo + cloudberryterrier + shopspanishmoss
Provavelmente, esta cena lhe é familiar:
O sujeito A tem um problema qualquer com o sujeito B. Em vez de ir até B e dizer o que pensa e sente em relação àquele ponto, A começa com uma conversa mental que pode variar entre “se eu disser isso, B vai me achar muito infantil”, “vou parecer egoísta”, “ele não vai entender”, “ela vai ficar chateada”, “ele vai se ofender”, “ela vai ficar brava”, “eles vão pensar isso ou aquilo e não é nem isso e nem aquilo”.
Mas A está se sentindo magoado, triste, chateado, não compreendido, com raiva, com ódio ou sabe-se lá com o que – e isso é real. Esbarra com C na rua sem querer, manda uma mensagem no Facebook ou liga no meio da noite e fala sobre o problema que tem com B. E fala mal de B, muito mal, e desenha a figura de B como o pior vilão que poderia existir e como ele poderia fazer isso comigo e como ela teve coragem de ser assim e coitado de mim.
E C, que não é uma pessoa qualquer, mas muito bem escolhida por A, possivelmente vai concordar com todas as acusações e lamentos feitos durante a conversa. Afinal, amigos são pra essas coisas.
Pronto. Está formada uma triangulação, ou Triângulo do Drama, como descreveu o terapeuta Stephen Karpman . Nesse momento, cada uma das pessoas assume um dos três papéis: A é a vítima, B é o perseguidor (ou algoz) e C é o salvador.
A vítima se mantém na posição de quem nada pode fazer para mudar uma situação e usa dessa suposta falta de poder para mobilizar os outros a apoiá-la ou mesmo a agir por ela. O perseguidor usa de estratégias como intimidação ou invalidação para manter a vítima sob seu controle e obter dela o que deseja. Enquanto o salvador, na tentativa de ajudar a vítima indefesa, apenas a mantém nessa posição, de modo que ela continua submetida ao perseguidor.
Pode ser que, ao longo dessa relação entre as três figuras, os papéis se invertam. Vez ou outra, o salvador pode se transformar no algoz do próprio perseguidor, por condená-lo. O perseguidor também pode manipular e se passar por vítima da própria vítima. O salvador também pode tentar fazer algo de diferente para alertar a vítima sobre o drama que está fazendo e a vítima pode transformá-lo no mais novo perseguidor injusto e esse antigo salvador se sente muito ofendido com isso e assume o papel de vítima.
Confuso? Agora imagine que cada um de nós, seres humanos, pouco confortáveis ou habituados com a verdade e a transparência em nossas relações sociais, de trabalho, familiares e mesmo íntimas, vamos criando uma série de triângulos e assumindo um dos três papéis em cada um deles.
O problema é que, nesses casos, a energia das relações não se renova. O perseguidor sempre vai retirar energia da vítima, o salvador vai pegar a energia do perseguidor e devolver para a vítima, que mais uma vez vai perder a energia para o perseguidor.
Assim, os sentimentos desse triângulo são, predominantemente, de culpa por ter retirado a energia de outro e de ressentimento por ter perdido a energia para alguém. E uma constante sensação de que falta algo, que faz com que a dinâmica se perpetue, como um velho conto de fadas em que todos já sabem o final.
Da próxima vez em que se vir em uma situação de triangulação, especialmente se for a vítima, procure ficar presente e não entrar no drama ou na representação desse papel. Em vez de levar o problema a uma terceira pessoa, experimente encontrar a maneira mais fácil de dizer diretamente a quem lhe magoou o que está acontecendo com você. E ainda que isso não seja possível, olhe para si mesma como um ser íntegro, completo, que tem poder sobre a própria vida e pode escolher entre repetir velhas histórias ou começar a criar uma nova realidade a partir de novas atitudes.
Aos poucos, comece a olhar para os diversos triângulos que já estão instalados em sua vida e reflita sobre a melhor maneira de desfazê-los, renovando a energia dessas relações, trazendo mais qualidade para os envolvimentos e se tornando mais autêntica consigo e com o mundo.
Conte pra gente como você se sentiu!



Adorei Thays, parabéns! Beijos
Excelente texto Thays! Parabéns!
Otimo perceber isso! Obrigado Thays