O roteiro de um filme chamado Vida
Imagem: Vanessa Siqueira + (desconhecido)
Se eu pudesse usar um objeto para simbolizar a minha vida, esse objeto seria uma lista. Com muitos, muitos tópicos. À medida que o tempo passa, alguns desses tópicos caducam, perdem totalmente o sentido e são eliminados mesmo sem serem cumpridos. Outros não saem nunca dali, porque mesmo que eu não tenha quase nenhuma vontade de ticá-los, eles fazem parte do grupo das coisas que meu imaginário diz que eu deveria ser ou fazer. Há também os itens que são praticamente a minha razão de viver e continuam sem um check, porque, para mim, as obrigações sempre vêm antes do que aquilo que realmente preenche meu coração. E não há tempo para tudo, não é mesmo?
Se eu fosse uma criança e tivesse que chutar o que as bonecas fazem à noite, enquanto estamos adormecidos, eu diria que elas escrevem novas coisas na minha lista mágica sem fim. Pegam todas as características das pessoas que admiro, todas as memórias com conteúdos que me dizem o que é correto fazer, todas as negações disso, todas as informações que tenho sobre o que o mercado espera de uma boa profissional, todos os elogios que me fizeram e dos quais não me senti digna, todos os defeitos que me apontaram, mesmo que eu não concordasse, todas as receitas de cada linha espiritual com a qual me deparei e transformam tudo em tópicos.
Se eu escolhesse um personagem para simbolizar a minha mente, ele seria o coelho de Alice, irritantemente a me dizer que é tarde. É tarde e eu nem comecei a ser a pessoa em quem gostaria de me transformar. É tarde e meu corpo envelhece sem nunca ter estado em sua melhor fase. É tarde e eu ainda não sei tantas coisas tão básicas. É tarde e mesmo assim eu sigo a passos lentos. É tarde e por mais que eu corra, não chego. É tarde e eu só fico a repetir que é tarde.
E se esse fosse um filme e eu precisasse escrever a cena do meu último dia de vida, ela aconteceria em um salão de festas vazio. Eu estaria em um canto, obcecada pela minha lista, com as costas rígidas e os olhos fixos. Um segurança mal humorado viria em minha direção me dizendo para ir embora, porque a festa acabou e já não há mais ninguém. Olho em volta e tudo o que vejo são alguns balões flutuando no teto e sujeira pelo chão. Não há música. Como não me movo, ele tenta me levantar à força e me tirar dali. Deseperada, tento argumentar: “Não pode ser! Mas eu não vi que estava tendo uma festa! Eu não dancei. Eu ainda não comi e não bebi. Eu não me diverti. Eu não senti a leveza e o frescor que estava esperando ao terminar essa lista aqui. E eu ainda nem terminei o que era preciso fazer. Veja bem, senhor, ainda faltam os itens mais importantes! Há algum engano”. E enquanto ele me arrasta para fora, vejo bonecas na decoração. E elas estão sem vida, como sempre estiveram, me revelando que jamais escreveram qualquer tópico. Mas a festa não volta. E tudo o que posso ouvir é a voz do coelho a ecoar: é tarde, é tarde, é tarde. E pela primeira vez ele tem razão.
Se você, assim como eu, não deseja que isso se transforme em vida real, preste atenção! A festa começou exatamente no momento em que você inspirou pela primeira vez. Não espere as luzes se apagarem para perceber que, todos os dias, há uma música diferente tocando, outros convidados chegando, novos sabores sendo servidos e muitos tópicos sendo realizados, mesmo que não sejam exatamente aqueles que estão na sua lista cruel ou megalomaníaca, como a minha.
Celebre a vida. Há sempre um bom motivo para isso. Mesmo que, por hora, não te pareça tão óbvio. E se não houver, crie. Você é a (o) dona (o) da festa e merece aproveitar.
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como uma luva…
Muito bom e verdadeiro, Thays! Obrigado.