Manifesto: Mulheres como agentes para a sustentabilidade
Por Thays Prado, Manoella Oliveira e Vanessa Siqueira
Imagem: Vanessa Siqueira + Pink Vintage Floral
Na próxima semana, começa a Rio + 20, Conferêcia das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, na cidade do Rio de Janeiro. Durante 10 dias (de 13 a 22 de junho), chefes de Estado, representantes de governos, líderes de empresas e movimentos da sociedade civil de todo o mundo se reúnem para discutir os rumos da sustentabilidade no planeta para as próximas décadas e assumir um compromisso político internacional para o desenvolvimento sustentável.
Entre as diversas ações organizadas para este momento histórico, gostaríamos de dar destaque às iniciativas e eventos que vão tratar das questões de gênero e da participação das mulheres para alcançarmos o futuro que queremos.
Para a Tato, a sustentabilidade não pode mesmo ser pensada sem a participação ativa das mulheres e da dimensão do feminino (presente em todos os seres humanos).
É fundamental que o mundo tome consciência de que, ainda hoje, mesmo com todas as lutas feministas e a conquista de poder realizada por algumas mulheres, ainda estamos longe de um cenário justo e igualitário entre os gêneros.
As mulheres são atingidas de maneira infinitamente mais aguda por problemas de ordem social, econômica e ambiental. Têm menos acesso a eletricidade e a água limpa (ao todo, as mulheres do planeta gastam 200 milhões de horas por dia para coletar água!); possuem menor grau de escolaridade, muitas vezes em função da crença dos pais de que não precisam sequer saber ler e escrever; são vítimas de violência sexual, física, psicológica e moral; são vítimas de tráfico internacional para prostituição em países em que o governo faz vista grossa para o assunto e de mutilação de seus órgãos genitais em casos de insubordinação ou crença cultural; sofrem com a precariedade da assistência à saúde sexual e reprodutiva; sofrem com as leis relacionadas ao aborto; acumulam muito mais funções no espaço doméstico, fazendo jornadas duplas ou triplas de trabalho; assumem postos em empregos com nenhuma ou menor remuneração em relação aos homens; ganham um salário mais baixo mesmo quando ocupam a mesma posição de um homem dentro da maioria das organizações; compõem a grande maioria dos pobres e miseráveis do mundo; estão mais vulneráveis às mudanças climáticas; sofrem preconceito pelas roupas que usam e por seus comportamentos, julgados eróticos demais ou frígidos demais; sofrem muito mais pressão para terem um corpo considerado perfeito (e quase impossível de ser atingido para os padrões humanos); são mais estimuladas pela mídia a gastar seu dinheiro com coisas fúteis; têm uma representação política muito inferior à dos homens.
O círculo vicioso que perpetua essa desigualdade ao longo dos séculos precisa ser parado.
Para isso, é fundamental que o mundo também tome consciência da outra parte da questão: as mulheres são imprescindíveis para as soluções globais.
Experiências realizadas em diversos países por governos, ONGs e empresas revelam que as mulheres são grandes agentes de transformação e que, individualmente ou em conjunto, são capazes de usar o poder conquistado a favor do bem-estar coletivo, do cuidado com o outro e com a Terra.
Não é à toa que bancos sociais espalhados pelo Brasil e pelo mundo emprestam dinheiro majoritária, ou até exclusivamente, para as mulheres. Pois o resultado é um baixíssimo ou mesmo inexistente índice de inadimplência e o investimento do recurso em projetos empreendedores, que geram renda não apenas para elas mesmas, mas para toda a família, pois é investida em alimentação, saúde e educação. Isso sem falar em sua imensa criatividade de desenvolver negócios que beneficiam toda a comunidade, ajudam a conservar o meio ambiente e propõem meios de produção e consumo mais equilibrados e ecológicos.
Não desejamos que as mulheres sejam salvas de suas condições, como se fossem inferiores, mas desejamos que lhes seja garantido o que lhes é de direito. Que lhes seja permitido ter vez, voz, igualdade de presença, de participação, de liderança, de tempo, de espaço, de acesso, de preparação para a vida, de manifestação de sua própria verdade, de recursos, de descanso, de prazer, de poder, de escolha e de tomada de decisões em todos os âmbitos que compõem a experiência humana.
As mulheres trazem consigo uma sabedoria que os homens desconhecem. Apenas se ela puder vir à tona, teremos a chance de sair da fragmentação e construir o mundo integral e interdependente, que realiza o melhor sonho que cada um de nós sonha, que considera a nota única que cada um de nós é, em uma sinfonia perfeita.
Esse é o nosso desejo de reflexão para a Rio + 20.
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