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Uma estória sobre diversidade

Por Thays Prado
Imagem: dream-big

Bem, bem distante daqui, em um outro tempo, que não se sabe dizer ao certo se muito antes ou muito depois do nosso, havia um mundo em que todos eram pintores e pintar era tudo o que havia para ser feito ali.

Todos os seres que escolhiam ir para aquele planeta, logo que chegavam, ganhavam uma tela em branco e a única condição era a de que, quando decidissem partir para outro lugar, deixassem a tela pendurada em algum ponto na Grande Galeria. Enquanto estivessem ali, podiam fazer o que bem entendessem com a sua tela – apenas com a sua – e tinham o direito de solicitar qualquer tinta, cor, ferramenta ou tecnologia que julgassem necessárias para a criação de sua obra autêntica. A proposta era que se expressassem, experimentassem e se divertissem com aquela experiência.

E cada um ia lidando com sua tela da maneira como podia. Alguns pintores olharam para fora e outros para dentro de si em busca das inspirações necessárias para a obra que desejavam criar.

No entanto, com o passar do tempo, muitos artistas se esqueceram do combinado inicial e começaram a refletir, angustiados, sobre o sentido daquele ofício de pintar.

Para alguns, aquele era um mundo de inevitável sofrimento e era preciso sofrer para que a pintura saísse como deveria. Outros tantos imaginaram que, no final, ao entregar o quadro antes de partir para outro planeta, eles seriam avaliados pelo trabalho realizado e receberiam um prêmio ou uma punição, dependendo do que haviam conseguido entregar.

Muitos se sentiram bastante oprimidos com a atividade, pois entendiam que pintar era uma obrigação muito chata, ou mesmo uma prisão, e que não havia saída. E pintaram qualquer coisa. Teve quem escolhesse simplesmente não pintar nada, apenas ficar olhando para a tela que amarelava ao longo do tempo. Teve quem preferisse destruir a tela e deixar apenas os vestígios na Grande Galeria.

Muitos pintores (a maioria, aliás) ficaram receosos de pintar o que bem entendiam, o que fluía de dentro deles, e resolveram sondar ao redor para ver o que os demais estavam fazendo. A diversidade era tanta, e o medo de errar maior ainda, que a sociedade dos pintores começou a tentar definir algumas regras para as pinturas. Ora, uma técnica era a correta, algum tempo depois, era outra totalmente diferente. E quem não pintasse como sugeria o “bom senso”, era duramente julgado. Alguns pintores viraram referências a serem imitadas e outros acreditavam que eles é que deveriam ser seguidos, pois possuíam a única verdadeira forma de pintar.

Alguns grupos que não concordavam com a moda vigente começaram a criar dissidências: Grupo Das Artistas Que Só Pintam Com A Cor Azul, Associação De Pintores Que Desenham Com Suco De Limão e Expõem Ao Sol, Comitê Das Pinceladas Feitas Em Ângulo De 45 Graus… Por mais que esses grupos fossem importantes para alertar sobre as infinitas possibilidades de criação, acabaram inventando anti-regras tão rígidas, limitadoras e excludentes quanto as regras seguidas pela maioria.

Uns entenderam que era preciso acumular cada vez mais tintas, cores, pincéis e outros materiais para realizarem seu trabalho, inclusive tirando os instrumentos de outros artistas. E muitos reclamavam aos 4 ventos de que não podiam pintar, pois não dispunham das ferramentas certas para isso.

Muita energia foi gasta na tentativa inútil de construir réplicas perfeitas da expressão de alguém outro.

Uma onda de conflitos, preconceitos e desrespeito pelas diferenças tomou conta do Mundo dos Pintores, e seus criadores, entristecidos, perceberam que aquela experiência estava gerando mais dor do que alegria – o que não era o propósito de jeito nenhum – e resolveram fechar o planeta.

Antes de deixarem o Mundo dos Pintores e seguirem para outros locais do Infinito, todos os artistas precisaram levar suas obras, ainda que inacabadas, até a Grande Galeria e foram convidados para a última exposição. A entrada custava a bagatela de deixar o julgamento na bilheteria antes de pisar no salão.

E foi assim que os quadros de todos os artistas que haviam passado por aquele planeta durante seus milênios de existência foram expostos juntos e, para a surpresa de todos, formavam uma belíssima exposição. Cada quadro, expressão única de um artista único, fazia total sentido para o conjunto da obra, e, se se observasse bem, continha algo que nenhum outro artista poderia ter trazido para aquela coleção. Era o registro de um povo, numa determinada dimensão, num determinado tempo-espaço, eternizado numa estrela.

Uma mistura de gratidão e tristeza tomou conta dos pintores que ali estavam, afinal, não era preciso ter havido tanta dor para a construção de algo tão belo. E muitos deles começaram a reivindicar que o planeta fosse reaberto, porque agora eles haviam entendido o propósito daquele mundo e fariam com muito prazer uma nova obra, ainda mais bela, pois ela fluiria totalmente da individualidade de cada um, da verdade de cada ser, e do amor que unia a todos eles.

Neste momento, uma série de telas-espelho começaram a flutuar pela Grande Galeria, se posicionando, cada uma, diante de um artista e registrando a sua verdadeira essência. Em seguida, as telas-espelho se reuniram no centro do salão e, em conjunto, provocaram o maior êxtase que qualquer um daqueles pintores jamais havia experimentado.

Então, eles se deram conta de que o ensinamento do Mundo dos Pintores havia chegado ao fim. E cada um seguiu para um novo planeta, que já tinha escolhido, levando consigo o que havia aprendido e, no canto mais alegre do seu coração, a memória das telas-espelho dançando juntas.

 



1 Comentário

    Lindo!

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