Deusas: Perséfone
Por Thays Prado
Imagem: Patricia Ariel
A donzela Coré, filha de Deméter, colhia flores pela campina verdejante, quando se encantou por um narciso, radiante e magnífico, plantado ali como armadilha de Hades, o Deus do Mundo Avernal, sob a aprovação de Zeus, pai da jovem.
Quando ela se inclina para colhê-lo, a terra se abre e Hades arremessa-se das profundezas, em seus cavalos imortais, e a arrasta para longe, enquanto ela grita, cheia de angústia e agonia, sem ser ouvida por deus ou mortal.
O que acontece logo após o rapto é mistério e os mitos não falam sobre isso. Mas o fato é que, no mundo Avernal, Coré é Perséfone, a deusa que amadurece e se transforma em uma rainha poderosa, unindo em si mesma as forças da vida, da morte e da transformação.
Ela faz um pacto com Hades de que passará com ele o número de meses por ano igual ao número de sementes de romã que engolir – tradicionalmente 4. E no restante do ano, Perséfone retorna à mãe Deméter, não mais como uma jovem ingênua, mas como uma deusa madura. E juntas, as duas representam os dois aspectos da Grande Mãe: o mundo da luz e das trevas, o mundo superior e o mundo inferior, a vida e a morte.
O mito de Persérfone nos lembra de nossa natureza cíclica e dual e da necessidade de fazermos um profundo mergulho dentro nós mesmas, indo ao encontro do que está reprimido e sombrio, do que pertence ao nosso inconsciente e até mesmo ao inconsciente coletivo.
Segundo o livro A Deusa Interior (Ed. Cultrix), o mito é ainda uma representação simbólica da separação entre jovem e mãe. Separação que precisa acontecer e ser aceita, com todas as suas implicações, para que a jovem prestes a se transformar em Rainha possa lidar com “suas próprias profundezas ainda não sondadas, com suas próprias trevas ainda não redimidas”.
Pode ser que algumas Perséfones da vida real se recusem a fazer a descida e, neste caso, tendem a se aproximar de guias e linhas espirituais que a tragam cada vez mais para a luz. Ou como define o casal Woolger, autor do livro: “Sempre desejosa de que papai Zeus venha salvá-la, esquiva-se do seu pavor das trevas mais profundas falando exclusivamente sobre a luminosidade e a dedicação de seus guias e sobre a alma evoluindo ininterruptamente para frente e para cima”.
Outras donzelas Perséfones podem se transformar exatamente naquilo que perderam: em uma mãe mais do que amorosa, atraindo para perto de si pessoas carentes e dependentes dela e se fundindo ao sofrimento dos outros, mais uma vez, sem fazer o próprio mergulho em suas entranhas.
Elas podem ainda assumir facilmente o papel de vítima, se organizando inconscientemente para viver situações que as machuquem e as façam mal, o que também revela seus desejos ocultos de serem salvas pelos deuses do Olimpo.
No entanto, é bom saber que pertence ao tão temido mundo das sombras tudo aquilo o que não desejamos revelar aos outros e a nós mesmos. Seja por ser considerado errado ou inadequado demais, seja por ser magnífico além do que poderíamos bancar diante de olhares invejosos ou reprovadores. No mundo das sombras, encontram-se partes nossas, tão fundamentais para a nossa integridade quanto as que mantemos na luz. E é quando tomamos consciência de nossas sombras e nos apropriamos delas que temos nas mãos nosso máximo potencial para realizarmos o que faz sentido para o ser único que cada um de nós é.
É o mergulho de Perséfone nas profundezas do mundo abissal que a faz abrir mão da ingenuidade, se conhecer por inteiro, unindo a sabedoria de seu lado escuro e de seu lado luminoso, e a retornar, como um farol de consciência para os demais.
É como dizem os autores: “O verdadeiro salvador não é Zeus, e sim, paradoxalmente, o irmão sombrio de Zeus, Hades. A sabedoria deste mito extraordinário é que a fonte da transformação de Perséfone vem de baixo, das profundezas abissais da alma, não dos confins mais elevados do espírito“.
E você, está pronta(o) para mergulhar?
Ritual para Perséfone: ouvindo sua voz interior*
Na hora de dormir, deite-se numa posição confortável e cubra-se com uma manta escura. Respire lentamente, solte todo o seu corpo e relaxe. Peça a Perséfone que mande mas mensagens necessárias durante a noite. Ao acordar, anote seu sonhos no seu caderno de cabeceira.
*Retirado dO Livro das Deusas, do Grupo Rodas da Lua (Publifolha).
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Muito bom saber mais sobre Perséfone e seu difícil e necessário processo de autoconhecimento! Inspirador. Obrigado, Thays