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Meninas Valentes

O novo filme da Pixar, Valente (Brave), traz uma princesa bem diferente das que costumamos ver. E para falar sobre Merida, convidamos a jornalista Mariana Marques, que é fã da Pixar

Por Mariana Marques
Imagem: divulgação

Quando vi um dos trailers que a Pixar lançou para divulgar Valente, fiquei muito empolgada. Merida, a protagonista, me parecia muito diferente das princesas dos filmes da Disney aos quais cresci assistindo. Enxerguei ali a chance de ter uma nova geração aprendendo com uma heroína que se afasta do padrão da boa moça apática que quer encontrar o príncipe encantado.

Vi o filme e pude confirmar que Merida é sim diferente, mas não pude deixar de sentir um pouco de decepção. A protagonista feminista é um desperdício dentro de uma história que poderia ser muito melhor desenvolvida. É impossível não achar a ruivinha de cabelos cacheados uma graça, com grande potencial para fazer as meninas pensarem bem se a felicidade só é encontrada mesmo com um bom casamento. Merida não quer se casar e não gosta de usar os vestidos que uma princesa deveria usar. Prefere sair em aventuras com seu cavalo Angus e treinar com seu arco e flecha.

O contraponto ao desejo de liberdade de Merida é sua mãe, a rainha Elinor, que pretende que a filha se comporte sempre como uma dama e que arrume um marido. O foco do filme acaba sendo o conflito entre mãe e filha e a história perde o ritmo na segunda metade do longa. Por que criar uma princesa tão diferente e não conduzir o filme com uma lição mais feminista?

Faltou explorar melhor a carga emocional de Merida. Faltou mostrar outros personagens femininos. Não sabemos, por exemplo, quem são as outras mulheres do reino, o que pensam da garota, quais são seus desejos. Por que não fazer de Merida uma heroína destinada a mais que resolver seu próprio conflito? Fico imaginando como seria incrível se houvesse uma revolução feminina influenciada pelas atitudes da protagonista. Outras princesas poderiam demonstrar seus desejos de serem mais livres, menos damas-robóticas e mais espontâneas. Mulheres poderiam se libertar de seus casamentos infelizes e mostrar que se viram sozinhas. Faltou mostrar referências para as meninas de hoje se identificarem. Por que não um musical embalado por Beyoncé?

Outro detalhe me incomodou foi o fato de que os pretendentes de Merida eram todos desinteressantes. Assim fica fácil aceitar que a princesinha os rejeitou. Que tal se um dos príncipes fosse mais ajeitadinho e ainda assim não despertasse o interesse da garota? Seria uma boa lição básica para as meninas entenderem que não basta ter um rostinho bonito.

Não é que eu ache tão grave essa exposição às histórias clichês de princesas. Arquétipos podem influenciar nossa vida muito menos que a gente imagina. O conto de fadas a que mais assisti durante a infância foi “A Bela Adormecida” – a menos feminista das princesas, segundo este ranking. Nem por isso eu sonho com o príncipe que irá me libertar, muito pelo contrário. A gente cresce e aprende depois com Emily Dickinson e Jane Austen. Mas ainda assim eu gostaria de ver mais princesas feministas no cinema. E não venham me chamar de sexista. Enquanto as meninas do Pussy Riot forem tratadas como terroristas e as pesquisas confirmarem o que a gente está cansada de saber, precisaremos de muito mais Meridas neste mundo.

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6 Comentários

    Sherek também é uma animação lindíssima e muito inteligente, que foge dos esquemas patriarcais, de esteriótipos e dos padrões convencionais. Sherek Rompe inclusive com a noção de belo e com a velha associação felicidade = beleza física. Os feios também amam. Não acho que o casamento deve ser demonizado (e acho que a autora também pensa assim), pois essa relação também pode ser libertária. O casamento pode sim ser o momento da liberdade e da felicidade, o que depende da RELAÇÃO estabelecida nessa instituição: é a relação que define a instituição casamento, e não o contrário. O cavalo, o arco e a flecha, partes da vida da menina, são símbolos históricos do gênero masculino (ligados à caça, à virilidade, à vida pública, etc.), o que mostra quão rico de metáforas é o desenho. O cabelo ruivo e encaracolado também foge à regra da loira de olhos azuais com seu cabelo liso. Também achei interessante como há um conflito de geração entre a mãe e a filha, incopatíveis nos modos de pensar e de agir.

  • Ainda não vi o filme pq os ingressos estão sempre esgotados, mas verei em breve! Não vejo nenhum problema em casamento, acho um ato bonito e que demanda mta coragem, mas, cá entre nós, finalmente uma princesa que não quer marido!!! Está na hora de começar a reverter a ideia besta de que toda mulher precisa de homem dentro de casa. Pode ser prático, né? Para matar barata e abrir vidro de geleia, mas eu estou cansadíssima do estereótipo da mulher dependente e desesperada atrás de homem. Espero que não seja a única.

  • Manoella, você é muito linda. Quer casar comigo? Abro vidros de azeitonas…

  • haha sensacional, José! Já preencheu um item fundamental, na minha opinião, para ser um bom marido.

  • Rsrs… reitero, você é linda.

  • Ainda nao vi Brave, estou bastante curiosa para dar uma olhada, mas tenho que discordar de você quanto às outras princesas da Disney.

    Fiona, de Shreck, por exemplo, não era uma princesinha passiva sonhando com um principe encantado.

    Mulan, abandonou sua familia e se infiltrou no exercito, arriscando a própria vida, movida por um único objetivo: proteger seu pai. Seu príncipe encantado veio de brinde.

    Ariel, a pequena sereia, era fascinada por artefatos humanos muito antes de conhecer seu príncipe, e sua personalidade desafiadora já podia ser sentida ali. Bem antes do maluco se afogar. Inclusive foi uma das poucas princesas da antiga leva a se envolver em briga direta com a antagonista de sua história (Ariel e Eric brigam juntos contra a bruxa do mar, ela se envolve diretamente no conflito).

    Até mesmo Bela, a mais romântica das princesas da Disney, não obedecia os padrões da aldeia em que morava e o que acabou aproximando-a da Fera foi justamente uma tentativa de proteger seu pai. Ela enfrentava a opinião pública sobre sua família e não estava interessada apenas em um rostinho bonito (rejeitando Gaston desde o inicio).

    Talvez elas nao parecem tão feministas para esse militarismo feminista de hoje em dia, mas nao concordo que sejam o clichê da princesinha, de forma alguma. É possivel ter o príncipe e ter personalidade ao mesmo tempo. Eu acredito.

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