Questão de dignidade

consumo-envelhecimento-propaganda-POSTPor Manoella Oliveira
Imagem: Nidhi Chanani

De uns tempos pra cá, percebi que adotei um novo hábito. Aos poucos, e com as interações do dia a dia, entendi que posso ser bastante útil aos velhinhos quando eles vão às compras: ajudo a ler os rótulos escritos com letras minúsculas, a encontrar a data de validade, a achar o chocolate com castanhas, mas sem passas, em meio aos produtos jogados (sim, jo-ga-dos. Quem frequenta supermercado popular sabe como é que é).

O mundo do consumo não foi feito para os idosos. As letras impressas nas embalagens são pequenas, as propostas comerciais são para os jovens, assim como os desejos associados a cada produto. Chegamos a um nível de idiotice tão espantoso que outro dia vi uma propaganda de água engarrafada que informava que “beber água ajuda a emagrecer”. Tá. Então, agora, é preciso reforçar a importância do consumo da água associando o produto a um corpo mais socialmente aceito. Claro! Porque é para isso que a gente bebe água mesmo, né? Nem é essencial à vida, essencial à vida é ter a silhueta da Barbie. Propaganda existe para vender coisas e não para educar ou salvar o mundo. Eu sei e acho legítimo, mas não posso deixar de ficar incomodada com certas coisas. Já falei sobre discurso publicitário aqui antes.

Mas o ponto é que quem fez esse anúncio de água engarrafada estava pensando nos idosos? Não. Assim como nenhuma empresa que fabrica 90% do que é vendido nos mercados. Por isso, acho que não me custa nada, absolutamente nada, gastar uns minutinhos a mais ajudando com o que eles precisam. Afinal, são a essas senhoras a quem eventualmente recorro quando preciso saber se a marca tal é boa mesmo ou se ela conhece aquele item que está em promoção. Não demanda energia nenhuma, basta ficar ao lado deles enquanto mexe em alguma prateleira e eles te perguntam se você pode ajudar. Acontece comigo quase sempre.

Se eu já me perco na desorganização das prateleiras e nas 1.200 opções de pão com passas, sem glúten, com aveia, com quatro grãos, oito grãos, 12 grãos, imagino a paciência necessária aos senhores e senhoras que nesses anos de vida já foram ao mercado muito mais vezes do que eu. Não, não tenho nenhum apego especial aos velhinhos, assim como não tenho nenhum nhém-nhém-nhém com bebês ou com cachorros ou com gatos…enfim, não sou uma pessoa nhém-nhém-nhém, convenhamos, mas o que percebi é que além de todas as limitações que temos na vida o tempo traz outras e nem sempre vai ter alguém ali para tornar as condições mais favoráveis. E como o sistema não vai mudar, senti que eu poderia fazer pequenas intervenções em favor de algo melhor. Os resultados são ótimos! Outro dia bati o maior papo com uma senhora, viúva, que foi casada com um alemão, domina o idioma (que estou tentando aprender) e me contou muitas histórias. Bem, isso não é necessariamente um convite, é só uma reflexão….

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1 Comentário

    Isso é basicamente aquele discurso clichê, mas que poucos aplicam: faça a diferença ao seu redor, pois se todo mundo o fizesse, o mundo seria bem diferente e, possivelmente, melhor.
    Eu não sou santo, porém sempre que posso ser atencioso e prestativo, eu o faço com o coração aberto, pois já que estou vivo e com saúde, por que não colaborar com a sociedade que vivo?
    É isso e adorei seu texto, Manu.

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