Sobre mulheres, Copa e gringos

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Por Manoella Oliveira

Tenho ouvido e lido muito mimimi sobre como está difícil a vida dos brasileiros héteros solteiros neste período de Copa do Mundo no Brasil, um momento em que o país está abarrotado de gringos e as brasileiras solteiras estão com os olhos voltados para esse público quase que exclusivamente. Por algum motivo que desconheço, os brasileiros acharam que a Copa atrairia muitas mulheres também, mas não: vieram os homens em peso e aí a festa azedou um pouco para alguns (eu disse ALGUNS).

Sim, os argumentos que motivam o #mimimi são os mesmos de sempre: mulher brasileira é interesseira e está atrás de la moneda e mulher brasileira é fácil e não pode ver “carne nova no pedaço” que já está arrastando uma asinha. Até aí, nenhuma novidade no discurso, né? Mas as mulheres não são todas iguais. Ainda no discurso, somos divididas em dois simpáticos grupos: mulherzinha e feminazi. Eu, no caso, por maioria de votos, pertenço ao segundo grupo e tão logo esse texto seja publicado alguém vai vir me desqualificar (a mim, não o texto) porque eu sou histérica, mal-comida e dramática. Acho que são os três adjetivos mais usados para se referir a uma mulher no Brasil, mas eles devem vir disfarçados de algum eufemismo que os caras juram que são naturais (e vão justificar na Antropologia e na Biologia #vaivendo) ou são elogios. Tal qual acontece no Dia Internacional da Mulher, aquela data horrorosa que ninguém sabe por que existe e, na tentativa de nos elogiarem, cometem gafes que, olha…..

Mas, voltando. De fato, os gringos estão aí e são, de certa forma, novidade. Eles vêm com outra carga cultural, beleza exótica, sotaques variados, um tato diferente e aquela alegria de quem está em outro país, de férias. Acho perfeitamente natural que isso chame a atenção, sorry. Ninguém está falando que os estrangeiros são melhores que os brasileiros, absolutamente. Nem tem como generalizar os grupos “brasileiros” e “estrangeiros” e pessoas razoáveis sabem disso. Cada um é cada um.

O problema é o de sempre: machismo. Como mulher, posso dizer que o machismo (aquele preconceito velado que quando a gente contesta é chamada daqueles três adjetivos bonitinhos citados acima) é o que faz os homens tratarem a gente de um jeito bastante desigual e isso é muito comum no Brasil. Em alguns outros países nem tanto ou não com essa mesma força e é óbvio que isso muda o trato dos homens em relação às mulheres e é óbvio também (embora não o seja para muitos homens) que a gente pode, sim, preferir a maneira de ser tratada, que a gente tem, sim, todo direito de ter preferências goste quem quer que seja ou não.

Aqui, se usamos saia, somos fáceis, se usamos calça, somos masculinizadas e a mulher do vizinho é melhor; se somos proativas, somos vagabundas, se não somos, temos que entender que então quem tem que sentir prazer é o cara, já que não nos prestamos a nada; se somos bonitas, temos que aguentar desaforo na rua; se somos feias, temos que dar graças a Deus se um desconhecido passa a mão na nossa bunda; se uma mulher persegue o cara, é louca, se um cara persegue uma mulher, “ele está apaixonado, olha que lindinho!”. Nessa visão, estamos sempre dando chilique por nada, estamos gordinhas, barrigudinhas ou neuróticas com o peso, somos grudentas demais, mas quando temos coisas para fazer, ai de nós, que estamos “destratando” o parceiro, pois não estamos à disposição do cara/dando atenção quando ele nos procura. Aí chegam os gringos em ritmo de férias e em ritmo de festa, achando as brasileiras lindas (exóticas), alegres, carinhosas, calientes, risonhas, encurvadas e os brasileiros vêm dizer que é tudo uma questão de câmbio. Tá.

Li por aí que “até as barangas estão andando de nariz empinado”. É, as barangas. E aí “a baranga” em questão prefere o gringo e o pessoal acha ruim. Justo, né? Entre um gringo que sussurre francês no seu ouvido e um cara que te chame de baranga, você obviamente escolhe o quê? Poupe-me. Ontem, andando na orla, um menino veio correndo atrás de mim e me segurou pelo braço. Juro que pensei que era assalto, mas era um menino (brasileiro) pedindo meu telefone. Não dei por que não o conheço, porque ele surgiu do nada, porque a abordagem foi pra lá de infeliz, só perguntou meu nome e meu telefone, mas certeza que ele vai falar com os amigos que não dei porque sou uma baranga nariz empinado atrás de um desavisado da zona do euro. Certeza.

Em poucos dias de Copa do Mundo, já ouvi muito mais do que achei que ouviria sobre o assunto: alguns claramente brincando e sem a intenção de ofender (embora ofendendo), outros claramente ofendendo embora imaginando que estivesse fazendo um comentário muito natural, já que é natural chamar mulher de maria gasolina, maria chuteira, maria passaporte, maria qualquer coisa. Honestamente, para mim não muda nada, acho até graça. A concepção de mulher dominante no Brasil (atenção: eu não escrevi “exclusiva”) é a de que somos interesseiras e fáceis e isso não deve mudar nos próximos 800 anos, portanto, não me surpreende. Mas não podemos deixar de desconstruir esse imaginário antiquado e ri-dí-cu-lo que nos persegue vida afora. Depois da Copa, tudo voltará ao normal e os brasileiros reclamões vão poder voltar a agarrar as brasileiras nas micaretas da vida como se estivessem fazendo um grande favor, com a benção do coro que diz “mas veja bem a roupa que ela está usando”.

No mais, só posso dizer que #tátendocopa.



1 Comentário

    O diferente é atraente…os gringos fazem a festa fato. Mas fica sempre uma questão…que diferença faz ter sangue britanico e Alma doente? Abraço!

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