Eternamente 20 e poucos

juventude-envelhecer-POSTPor Manoella Oliveira

Acontece com cada vez mais frequência que eu ande por aí e olhe para as mulheres sem ter a menor ideia de quantos anos elas têm de verdade. Está todo mundo cada vez mais parecido, todo mundo aparenta ter ou se esforça para ter 20 e poucos. As mulheres mais velhas renegando a idade, querendo arrastar os 20 como se fossem um elástico que dá para vir puxando. As meninas mais novas querendo acelerar o relógio e parecerem mais velhas, mais sensuais, “mais mulheres”. E a gente vai convergindo para um modelo estético que escolheram para nós.

Acho que o velho conto do poder de sedução continua funcionando, né? E ele continua coladinho com a juventude eterna. Aos homens tudo, às mulheres o único poder que elas têm: o poder de sedução. Está aí estampado em todo e qualquer lugar.  “Toma aí seu poder de sedução, fofa, e fica caladinha. Fique aí bem apegada a isso porque isso é tudo que você tem”. Sério, gente? É nisso que devemos investir toda a nossa energia e, claro, todo o nosso dinheiro?

Para a indústria, envelhecer no mundo do consumo é complicado mesmo. Já falei sobre isso uma vez. Para a publicidade, não ser perfeita e sedutora e consumista também é.  Mas sua melhor escolha é se adequar ao discurso dos outros? A eterna juventude é realmente o que importa? Os 20 e poucos reais ou forçados são realmente a melhor fase da vida? Por quê? E o que você realmente ganha congelada, ali no mesmo lugar, ou correndo para chegar logo na idade tal, sem abraçar sua idade?

Acho digno e respeitoso com nosso próprio corpo que a gente se cuide, coma bem, viva bem, se sinta bem, fique bonita, mas é preciso pensar se o que te faz bem te faz bem por você ou te faz bem porque o mundo decidiu que é assim, que você vai se sentir bem depois que for tal coisa e, claro, depois de comprar tal coisa. E, sim, para ser tal coisa você necessariamente tem que comprar ou pagar por outra coisa. É só o capitalismo, é só dinheiro, é só uma cilada, Bino! E tudo bem você só se sentir bem usando roupas iguais às da sua filha mais nova ou sendo histérica com a tal bunda da Paolla Oliveira, desde que isso seja LEGÍTIMO para você e não porque você vai ser menos mulher, menos amada, menos desejável, menos poderosa se você parar de caber numa calça 36. Vamos olhar mais desconfiadas para o discurso capitalista e criar coragem para olhar para dentro de nós, comunicar nossa personalidade sem forminhas e modelinhos? Vamos parar de reforçar padrões e estereótipos absolutamente desnecessários à vida humana? Ou, como diria Simone de Beauvoir, vamos “comunicar o sabor da nossa vida” para valer? Ela não disse exatamente isso, mas é por aí.



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